22.10.11

E vão mais dois



Esta foi captada na mesma ocasião que a anterior; só me ensanduicharam entre o Beto e o Lelo.

21.10.11

Amor fraternal...




Note-se a preocupação protectora do primogénito, insuspeito, naquela altura, de escrevinhador em blogs.
A mana Marilena já deixava transparecer a beleza grácil que viria a fazer dela uma das mais requestadas donzelas de Cabo Delgado e arredores.
Já o semblante angélico do caçula estava longe de anunciar o Turita do futuro, terror de Balama, ás das picadas, flagelo dos opressores (ia escrever professores) e protector dos mais fracos.

A foto deve datar do fim dos anos 40.

Jamal

O Jamal era um camionista ("transportador") da Sagal, um negro alto, que fazia jus ao nome, que significa "belo" em árabe.
Lembro-me dele, imponente, na altíssima cabine do enorme Thornycroft, um camião que era um gigante das estradas e cuja fealdade aumentava a sensação de potência que transmitia..
O Jamal não tinha, muito provavelmente, frequentado a escola mas era dotado de especial curiosidade cultural que o meu Pai muito estimava e estimulava, emprestando ao Jamal revistas e livros e mantendo com ele longas conversas.
A sua profissão e itinerância e os contactos que que ia mantendo com comerciantes, tornavam-no, também, um bom julgador dos sinais da economia, numa fase ainda muito primitiva do sistema de trocas e do marketing incipiente que os comerciantes locais faziam sem o saber, tal como Monsieur Jourdain em relação à prosa.
A determinada altura, um novo comerciante estabeleceu-se "na praça" e a natural curiosidade dos habitantes sobre os efeitos da abertura duma nova loja e sobre a forma como decorria o negócio, levou o Meu Pai a perguntar ao Jamal:
-"Então, como vai o negócio de Fulano?"
O Jamal pensou um pouco e respondeu:
-"Senhor Augusto, é boa pessoas, boa pessoa mesmo. Às vezes dá uma capulana às mulheres, dá sal aos homens, dá chupa-chupa aos "mirraus" (1), trata bem toda a gente."
Meditou mais um pouco, abanou a cabeça e acrescentou:
-"Mas o filho-da-puta parece "monhé" (2), tonelada dele só tem 750 quilos!"


(1) "Mirrau"-palavra macua que significa "criança", "miúdo".
(2) "Monhé" - Ver definição aqui .


Procurei entre as minhas fotos mas não encontrei nenhuma de um
Thornycroft  da  SAGAL.  Esta,  encontrada  na  net, via Google,
representa um modelo mais recente mas que dá uma ideia
aproximada da forma dos (para mim) míticos camiões.

19.10.11

Esclarecimentos

Tenho recebido de alguns leitores que continuam, heróica e persistentemente, a ler os meus posts, esclarecimentos que não são só úteis, são também reconfortantes.
Assim, de Celestino Gonçalves, já aqui referido e generoso fornecedor de fotografias, recebi a seguinte dica sobre este post: "o que me recordo é que a senhora era viúva de um comerciante, creio que chamado Ventura e depois deste ter falecido ela era como que uma atracção dos camionistas que por ali passavam e se dessedentavam na sua cantina".
Obrigado; de facto, salvo o nome do falecido, era a ideia que eu retinha.
De Barcelos, a minha irmão Maria Helena, àcerca de "Teixeira & Ramalho", diz-me que "o nosso Pai tomou conta das coisa, da loja, do bar e da padaria porque, quando o Santos (Chefe dos Correios e marido da nossa prima Belita Ramalho) foi transferido para Lourenço Marques, a Tia Aninhas foi com ele e o Tio já estava doente".
Sim, lembro-me agora.
O meu primo Aurélio Rocha (Lelo), historiador e professor,, comenta assim: "É, na verdade, uma foto histórica, a primeira vereação de Montepuez. A confirmação do municipalismo foi uma conquista dos moradores que durante anos lutaram por pôr Montepuez no mapa.Além dos nomes que mencionas estão ainda o Dr. Pires (médico), o Villas-Boas e um tal Catuna que creio que era transportador ou coisa assim. O Turita lembra-se dele melhor do que nós, com certeza."
Agradeço a todos, como agradeço quaisquer comentários, sugestões, ajudas e contactos.


Memória Colonial (III)


Há assuntos que se não podem, honestamente, esconder quando se fala de portugueses que conheceram a África colonial.
 Entre eles, o racismo, a guerra e os retornados, aqueles mesmo que o grande mercado da nostalgia de que já aqui falei, tende a minimizar, relativizar, quando não, pura e simplesmente, apagar e negar.
A ficção portuguesa tem tratado o segundo, a guerra, com alguma frequência, embora com qualidade desigual, sendo que alguns grandes autores já se debruçaram sobre ele, como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo, entre outros.
O racismo, que perpassa, imanente, por toda a literatura de alguma qualidade, sublinhado, edulcorado ou minimizado, não tem sido, que eu conheça, tema central da ficção portuguesa post-colonial.
Restam os retornados. Esta palavra, que designava hipócrita e mentirosamente (uma grande parte dessa onda humana não “retornava” a sítio nenhum, pois nunca aqui vivera), adquiriu, nos anos de brasa de 70, uma tonalidade quase insultuosa. Centenas de milhar de pessoas foram discriminadas, apontadas à execração pública por turbas neo-revolucionárias de lumpen e vira-casacas, em caricaturas cruéis e violentas de ferozes capatazes de chicote em punho, negreiros ávidos e desumanos, votadas ao vexame da “caridade” familiar ou da “ajuda”, esta palavra, pois, sintetiza um drama colectivo de proporções bíblicas. Eles tinham, como diz Lobo Antunes em “Os Cus de Judas”, vivido longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui.
Tal como no caso do racismo, os retornados surgem, aqui e ali, em apontamentos ou retratos em várias obras contemporâneas.
Em 1981, Guilherme de Melo publicou “A Sombra dos Dias”, os retornados vistos da perspectiva de Moçambique e inaugurou, por assim dizer, o sub-género.
Mas agora, passados 30 e tal anos, com a chegada das crianças que abandonaram as ex-colónias à frente do tsunami da Libertação, processadas as memórias, rompeu-se o dique e os retornados aí estão, caso de estudo, assunto de discussão e, para o que aqui interessa, objecto de ficção.
Mais uma vez (et pour cause) com qualidade, propósito e perspectivas diferentes e, por vezes, opostas mas aí está.
Acaba de ser publicado e ainda não o li, saiu há poucos dias.
Mas o que sei já sobre este livro, vai fazer-me correr, ainda hoje, para uma livraria.
Trata-se de “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso.
Dele disse Pedro Mexia, no “Expresso”: Dulce Maria Cardoso encontra o registo certo em todas as cenas, emocionado e seco, triste e orgulhoso, cheio de culpa e incerteza, de palavras africanas que eram o português angolano, de recordações epocais, como fotonovelas ou marcas de uísque. É essa história visivelmente vivida, sem demagogia nem rasuras, que faz de "O Retorno" um romance há muito aguardado.
Do sentimento de rejeição que ela própria sofreu ao chegar a Portugal, diz a autora: Só o consegui perdoar quando o tornei útil. Ou seja, quando percebi que normalmente as vidas são curtas e tudo nos atrasa. Não é à toa que o protagonista do romance é um adolescente. É porque é na adolescência que nos podemos redefinir. E nas convulsões, nos tempos conturbados estamos outra vez numa espécie de adolescência do país. Os retornados mudaram as coisas. As retornadas com as minissaias e o fumo e isso tudo. Isto aqui era mesmo assustador. Não é brincadeira. Lembro-me de pensar que só havia quatro cores: cinzento, bege, castanho e preto. Nó, os de lá, tínhamos um arco-íris. Parecíamos uns palhaços.

E na mesma entrevista (Revista “LER”-Out.2011), sobre uma reflexão que o romance também faz: (…) como é que lidamos com o colonialismo e com a sua memória. Para nós, como povo, isso é determinante. Crescemos na ideia de que fomos um império. Ainda sou dessa geração. E de repente somo só isto. Como aquelas mulheres que foram muito bonitas e agora é só a descer. Isto deprime. Deprime tanto a mulher bonita como deprime um povo.   

O Retorno
Dulce Maria Cardoso
Ed. Tinta-da-China
 1 ª edição: Outubro de 2011
n.º de páginas: 272

18.10.11

Primeira Comunhão


A foto antiga data do início dos anos cinquenta.
A outra foi captada este ano, durante a minha viagem.
Distingo, entre os catecúmenos, na primeira fila, da esquerda para a direita, o meu primo Beto, minha Irmã, o meu primo Augusto Zé, este que aqui escreve e o meu primo Lelo.
Na segunda fila, reconheço as minhas primas Teresa, quinta a contar da esquerda, Belita e Fernanda.
Entre os adultos, de  
escuro, no lado direito da foto, a minha Tia Mariana e, ao lado, um pouco mais recuado, o meu Tio Júlio Ferreira.
Montepuez era "cosa nostra"...
A  capela não sofreu grandes alterações, como é fácil de constatar.

A minha "madalena de Proust"




O episódio da “madalena” em “Du côté de chez Swann” é o mais emblemático exemplo daquilo que está na base de toda a monumental “À la Recherche du Temps Perdu”, a saber, a digressão por recordações desencadeadas (e encadeadas) involuntariamente por emoções e sentimentos, essa “memória relacional” já várias vezes evocada neste blog.
Recordar-se-ão que é pelo sabor de um pequeno pedaço de um bolo “madalena” ensopado em chá que Marcel Proust leva à boca, que, subitamente, se lhe “revela” uma recordação que nunca mais aparecera no seu consciente, enterrada que estava por outras memórias só aparentemente mais nítidas e põe em movimento as emoções que virão a ser a "Recherche".
Na verdade, todos temos várias “madalenas” - sabores, cores, sons, imagens, odores – que têm esse mágico poder de reconstituir pedaços de vida anterior completos, por vezes incluindo mesmo a sensação geral de bem ou mal-estar.
A minha “madalena” mais evidente é o cheiro de alguns tipos de terra molhada pela chuva.
Pelo que sei, esse cheiro é tantas vezes referido em escritos, conversas ou memórias de pessoas que, outrora, estiveram em África que ele deve, de tão recorrente, ser uma “madalena” quase universal.
Lembro-me de que, há quase vinte anos, recém chegado ao Brasil (que me acolheu, dessa vez, por quase cinco anos), fiz uma viagem pelo interior de Goiás; tinha chovido e o cheiro daquela terra argilosa, encarnada e visivelmente fértil, “atirou-me” imediatamente para Moçambique e para a minha infância. De repente, a paisagem pareceu mudar e vi coisas que antes não tinha visto: vegetação tropical, bananeiras, palmeiras, mangueiras, gente de pele tisnada andando na berma da estrada, cães escanzelados a acompanhar, correndo e ladrando, o automóvel.
A recordação dessa viagem a Goiânia ficou, no meu cérebro contígua, se não confundida, com certas memórias de Montepuez. De tal forma que, de todas as vezes que reencontro essa minha “madalena”, a recordação do Brasil, do automóvel em que viajava, das pessoas que me acompanhavam e do prazer que senti na altura, reaparece misturada a memórias sinestésicas de infância, completas e reconfortantes.
Na minha recente viagem a Moçambique, cheirei o intenso odor de que falo não só em Montepuez mas também noutros locais do país, a começar por Maputo e a acabar em Inhambane. A “madalena” funcionou sempre.

17.10.11

Teixeira & Ramalho


Teixeira & Ramalho era a firma da sociedade dos meus tios António Teixeira e Joaquim Ramalho.
Depois da morte do primeiro, manteve-se na propriedade do outro e mais tarde, por razões que não conheço ou de que não me lembro, passou a ficar sob gerência do meu Pai.
Era, para além do Clube, o local de encontro social; só de homens, entenda-se, que as senhoras não o frequentavam senão para compras, ao contrário do que sucedia com o Clube.                                                                             
A varanda, junto ao bar, era o local do aperitivo de antes do almoço e do drink ao fim da tarde.
Adolescente, aí disputava com o meu primo Augusto José, o saudoso "Pancinhas", renhidas partidas de poker de dados que decidiam quem pagava as contas dos whiskys, bebidos, ainda, em semi-clandestinidade, dado o desagrado parental face à precocidade dos consumidores.
Antes do almoço, o meu tio Aires Rocha, impecavelmente trajado "à colonial", de fato branco, sempre jovial, esperava até ao chamamento do criado que vinha anunciar "senhora 'tá chamar p'ró almoço" para escorropichar o último trago da bebida.
Quando vim para Lisboa para a Faculdade e, dando conteúdo prático à iniciação política bebida em longas conversas com o Dr. Cansado Gonçalves, meu Professor no Liceu de Lourenço Marques, fugaz (mas marcante) Secretário-Geral do PCP e da Drª. Maria da Luz, iniciei entusiásticos contactos com a clandestinidade política.
De férias em Montepuez, pedante e emproado, era frequente que provocasse a ira paterna com tiradas patetas, debitadas no tom rebarbativo de um leninezinho em potência. 
Isso passava-se, habitualmente, à hora do almoço e, em seguida, marchávamos, eu e meu irmão, para a varanda acima perpetuada; atrás, de sorrizinho sarcástico, o meu tio Joaquim Ramalho, assobiava, cheio de gorgeios, a "Internacional"!
Quando isso sucedeu pela primeira vez, imagine-se o meu espanto ao constatar que, mesmo no meio do sertão setentrional de Moçambique, alguém reconhecia o Hino e logo um tio meu!...
Foi assim que fiquei a conhecer o conspícuo "passado revolucionário" do meu tio.

16.10.11

Citação V




O Eu autobiográfico 

"À medida que as experiências vividas são reconstruídas  e representadas,  quer numa reflexão consciente, quer num processamento não-consciente, a sua essência é reavaliada e inevitavelmente reagrupada, modificada ao de leve ou em profundidade, no que respeita à sua composição factual e ao acompanhamento emocional. Durante este processo, as entidades e os acontecimentos adquirem um novo peso emocional. Algumas imagens da recordação ficam pelo caminho na mente, outras são recuperadas e realçadas, outras ainda são combinadas de forma tão habilidosa, quer pelos nossos desejos, quer pelos caprichos do acaso, que acabam por criar cenas novas que nunca realmente existiram. É assim que, à medida que os anos vão passando, a nossa história pessoal é subtilmente reescrita. É por isso que os factos podem adquirir um significado novo e que a música da memória soa hoje diferente que há um ano."

ANTÓNIO DAMÁSIO, "O Livro da Consciência - A Construção do Cérebro Consciente"  
Ed. Círculo dos Leitores, 2010 

14.10.11

Memória Colonial (II)


Ao contrário do filme de Diana Andringa, é difícil classificar o livro de Isabela Figueiredo como “delicado”.
“Caderno de Memórias Coloniais” é um livro autobiográfico, um ajuste de contas com memórias de infância, executado com dureza (por vezes com crueza) e, aparentemente, com uma sinceridade brutal.
A autora saiu da Matola aos 11 anos, deixando aí um pai que adora mas sobre o qual não deixa de lançar o seu olhar desapiedado, reconhecendo o racista primário que assimila à sociedade colonial.

“ Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril. Em Lourenço Marques, sentávamo-nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restaurante, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com soda e gelo, e a debicar camarões, tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de segunda, engolindo uma imperial e enjoando tremoços. Os criados eram pretos e nós deixávamos-lhes gorjeta se tivessem mostrado os dentes, sido rápidos no serviço e chamado patrão. Digo nós, porque eu estava lá. Nenhum branco gostava de ser servido por outro branco, até porque ambos antecipavam maior gorjeta. O meu pai, a quem coube a missão de electrificar a Lourenço Marques dos anos 60, nunca quis empregados brancos, porque teria de lhes pagar os olhos da cara.”

A raiva prolonga-se, depois, pela condição de “retornada”:

 «A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, que tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós e o que tínhamos acabado de viver, cobardes filhos de uma puta brava.»

A autora estilhaça o mito do não-racismo da colonização portuguesa, desmascara ao lugar comum piedoso que serve para esconjurar passados obscuros e atirar um manto sobre o lado mais obscuro  de muitos percursos de vida.

"Caderno de Memórias Coloniais"
de Isabela Figueiredo
Ed.Angelus Novus

O Dr. Cintra


À direira estão o Dr. Cintra e a Srª. D. Maria João, à esquerda julgo reconhecer um Administrador de Montepuez cujo nome se varreu da minha memória; entre eles, claro, os meus Pais.
A foto deve datar dos anos cinquenta e foi tirada no Natupile, a machamba onde habitualmente vivíamos, ao pé de Balama, a 50 Km de Montepuez.
O Dr. Cintra era o médico que chefiava, em Balama, o Posto da MCT (Missão de Combate à Tripanosomíase, a terrível “doença do sono").
Como é óbvio, o Posto era um verdadeiro hospital, pequeno, mal dotado de meios mas que supria, com dedicação, algumas necessidades básicas das populações mais próximas e fazia do  Dr. Cintra era um dos muitos e obscuros émulos de Albert Schweitzer que pululavam pelas colónias.
Balama, uma pequena localidade onde a SAGAL era a principal empregadora teria, que, além da casa “chefe” da empresa (não sei se era já o “toureiro”  Henrique Granjeia), da MCT e residência do Dr. Cintra, do Posto Administrativo e da casa do respectivo Chefe, haveria, como construções de alvenaria, uma ou duas cantinas.
Mas para crianças que viviam literalmente “no mato”, onde um longínquo ruído de motor de automóvel provocava picos de enorme excitação, amaior parte das vezes seguidos de negra desilusão porque o carro em questão não tinha a machamba como destino, uma ida a Balama era quase uma “ida à cidade”.
O Natupile era a cerca de 15 km e, assim, a Srª D. Maria João, senhora de modos aristocráticos e singular simpatia, e o Dr. Cintra, exuberante e sempre elegantemente ataviado, eram nossos vizinhos e visitávamo-nos amiúde.
Lembro-me do fascínio que despertava em mim uma delicada rede (de seda?) que o Dr. Cintra usava para manter a sua densa, negra e bem penteada cabeleira empastava em brilhantina sem um só cabelo fora do lugar e que, por várias vezes, provavelmente por termos chegado a Balama de improviso, ele ostentava.
E mais impressionado fiquei (sentimento que os meus irmãos partilhavam), quando fui informado que era, sobretudo, para dormir que o artefacto era utilizado.


No verso da foto, escrita com a caligrafia de minha Mãe, está a frase "No pomar do Natupile". Não há indicação da data.

13.10.11

A Moçambique, aqui, vim deportado



A Moçambique, aqui, vim deportado,
Descoberta a cabeça ao sol ardente;
Trouxe por irrisão duro castigo
Ante a africana, pia, boa gente.
     Graças, Alcino amigo,
     Graças à nossa estrela!
Não esmolei, aqui não se mendiga;
 Os africanos peitos caridosos
Antes que a mão o infeliz lhe estenda
A socorrê-lo correm pressurosos.
     Graças, Alcino amigo,
     Graças à nossa estrela!



Tomás António de Gonzaga, o árcade que imortalizou “Marília de Dirceu”. Condenado pela sua participação na Inconfidência Mineira, teve a sua sentença de morte comutada na pena infamante de degredo que cumpriu na Ilha de Moçambique, onde morreu em 1810.

11.10.11

Memoria colonial ( I )



Diana Andringa é conhecida como uma grande jornalista e é também, coisa que menos gente sabe, uma grande cineasta.



Nascida em 1947 em Angola, no Dundo, sede da Diamang, daí saiu com onze anos, para a “Metrópole”, como então se dizia.



Em 2009, cinquenta anos depois, Diana voltou, pela primeira vez, à sua terra natal, acompanhada pela filha. E filmou esse regresso em “Dundo, Memória Colonial”.



Com admirável delicadeza e com uma ambivalência que ela própria reconhece,

a antiga activista anti-colonial, presa pela PIDE pelo seu envolvimento com os Movimentos de Libertação, "vai confrontar a memória" e, ao mesmo tempo, passar o testemunho aà sua filha Sofia, inocente, esta, do "pecado original" da felicidade infantil em terras de violência:
"Era bom ser criança no Dundo, quando se era branca e filha de engenheiro. Havia espaço para brincar, ruas para andar de bicicleta, animais, liberdade. E criados para nos acompanhar e satisfazer os nossos caprichos. Era bom ser criança e não notar como era artificial e injusto o mundo que nos cercava".


Como diz Jorge Martins aqui : "regressou ao hospital onde nasceu e à casa onde viveu parte da sua juventude plena de boas recordações e espantou os seus interlocutores com a sua brancura africana. E, confesso, tenho uma enorme inveja de ver o brilhozinho nos olhos de todos os portugueses que viveram em África (...) quando recordam esses anos."


É verdadeiro, esse brilhozinho. Só ele pode explicar que Diana Andringa, saída ainda criança da sua terra natal,  depois de toda uma vida  (e que vida!) feita em Portugal, possa afirmar "agora volto porque o Dundo é a minha única Pátria, a mais antiga das minhas memórias". 


O filme existe em DVD.

10.10.11

Celestino Gonçalves


                                                                                                (Foto cedida por Celestino Gonçalves)

Tenho tentado que este blog não seja apenas sobre memórias mas que também tenha por tema a memória.
Procuro evitar, tanto quanto possível, integrar o mercado complacente da nostalgia que tantas vezes – a maior parte delas -  mitifica e retoca em tons róseos uma realidade bem mais sombria. 
É impossível escapar completamente à ambivalência provocada pela assimilação inconsciente das recordações da infância à ideia de felicidade e, portanto, de alguma contaminação sofrerão os meus posts. Mas é possível manter o equilíbrio ao rebuscar os escaninhos da(s) memória(s).

Encontrei esse equilíbrio, por exemplo, quando descobri, navegando na net, vários conjuntos de fotografias e outros documentos da autoria de Celestino Gonçalves ou com ele relacionados.
Conheci-o durante a década de 60 como Fiscal de Caça em Montepuez. De tempos a tempos, chegavam-me notícias ou referências dele.
Consegui contactá-lo hoje, com o objectivo de lhe pedir autorização para usar, neste blog, algumas das fotografias que encontrei na net. Acedeu, imediata e generosamente, e aqui lhe deixo um abraço da amizade e agradecimento.
Como ele próprio deduziu, a primeira foto sua que utilizo, fixa para a posteridade a primeira vereação de Montepuez. Nela se podem reconhecer ele próprio e o meu Pai mas também o meu tio Joaquim Ramalho, Cunha Alegre, Vilas Boas, Silvestre...
A elevação de Montepuez à "dignidade municipal" foi sentida como uma honra e como um passo no caminho radioso do Progresso (com maiúscula e tudo...).

6.10.11

Segunda fase

A partir de agora, terminada a descrição da minha recente viagem a Montepuez, inicio uma nova fase do blog.
Montepuez continuará a ser o tema central mas os assuntos tratados serão mais diversificados.
Tenho intenção de aqui publicar algumas velhas fotografias e memórias mas também outro tipo de posts, sem grandes limitações de assunto ou forma.
Veremos o resultado porque o blog ir-se-à fazendo post a post.