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26.3.12

Errâncias VI

Depois dos Jesuítas, os Maristas de Lourenço Marques poderiam passar por um refrigério moderno e liberal.
Recebendo um prémio. Em pé, de branco, o Irmão Lourenço.
Sentado, o primeiro à esquerda, o Cardeal de Lorenço Marques
D. Teodósio Clamente de Gouveia
Em lugar do soturno casarão de Santo Tirso, um edifício claro, arejado e de linhas modernas. As lúgubres sotainas negras dos Jesuítas substituídas pelas leves batinas brancas dos Irmãos. A severidade distante dos Padres das Caldinhas dava lugar a uma informalidade "tropical" dos Maristas, muitos deles brasileiros e, portanto, mais soltos e desempoeirados.
Hockey no Colégio. À esq. eu, com o equipamento
do Colégio. Ao lado, o Tó Manel Rocha Ribeiro
Todas estas diferenças eram, ainda, potenciadas pelo ambiente envolvente, o sol africano contra o nevoeiro minhoto, as alegres acácias rubras de Lourenço Marques contra as verde das courelas nortenhas, os espaços africanos em contraste com o Minho acanhado e pequenino..
Os alunos do Colégio PioXII, assim se chamava (se chama?) o estabelecimento, usavam um uniforme very british, calça ou calção azul marinho, casaco azul com listas duplas a amarelo, gravata do mesmo padrão. 
E, contudo, a obrigatoriedade do uso de uniforme não comportava um acréscimo em relação á rígida (e ríspida) disciplina dos membros da Companhia de Jesus que recorriam, com frequência, a castigos corporais. 
As próprias relações dos alunos com os professores e perfeitos tinham uma familiaridade inusitada e os Irmãos prezavam os desportos, não desdenhando arregaçar as batinhas, prendê-las no cinto e disputar renhidas partidas de futebol, de vólei ou de basquete.

Tal com durante a minha passagem por Portugal (pela Metrópole...) também em Lourenço Marques tive encarregados de educação, o senhor Rocha Ribeiro, antigo Administrador do Quadro, e a sua mulher. 
Os filhos, o Tó Manel, o Zé Joaquim e a Lena e, ainda, a João, então muito pequenina, quase me fizeram sentir em casa.
Estive no Pio XII até 1957; não direi que foi um período MUITO feliz da minha vida mas, comparado com o pesadêlo de Santo Tirso foi, como disse no início, um refrigério.  

15.3.12

Errâncias VI

Não sei que informações teriam meus Pais acerca do Instituto Nun'Alvres (sic) nem de onde seriam elas provenientes.
A verdade é que o Colégio jesuítico da Caldas da Saúde (Santo Tirso) gozava, nos meios conservadores e católicos, de uma reputação muito sólida e lisonjeira.
Com a expulsão dos jesuítas pelo Governo republicano, a Ordem instalara um Colégio em La Guardia, muito perto da fronteira portuguesa, em frente a Caminha. 
Quando Salazar pôs fim à proibição, logo no início dos anos 30, o Colégio foi, então, instalado nas Caldas da Saúde, também conhecidas por Caldinhas.
À entrada do Colégio, com o Turita junto ao portão
Foi aí que, certamente "para meu bem", fui internado em 1952/53.
O contraste entre o quotidiano do Natupile e de Montepuez, vivido no conforto protector da família e na liberdade dos grandes espaços africanos, e o Colégio interno, ferreamente disciplinado pelas assustadoras figuras de negras batinas, no meio de centenas de pessoas desconhecidas, os enormes e frios dormitórios, os terrores nocturnos induzidos pela doutrinação ininterrupta, cheia de imagens do eterno sofrimento do Inferno que me esperava, tendo em vista os meus imperdoáveis pecados, era, positivamente, insuportável.
O Colégio, bem integrado no espírito do Padre Inácio fundador da Companhia de Jesus, que a quis moldada como uma Ordem Militar, dividia os alunos em seis "Divisões", sendo a "Sexta Divisão" a dos mais pequenos na qual, como é evidente, eu estava integrado.
A acrescer, a funda sensação de abandono quando minha Mãe, acompanhada pela Lena e pelo Turita, voltou a Moçambique, um trauma - digo-o convicta e seriamente - me marcou para sempre.
Eu ficara "confiado" a uns "Encarregados de Educação", uma simpática e acolhedora família do Porto, a Senhora Dona Maria Amélia e o Senhor Diogo Santos Clara, residentes na Rua Visconde de Santarém e Pais de três filhos dos quais o mais novo, o Diogo Maria tinha, pouco mais ou menos, a minha idade.
 Os Santos Clara, minha família de substituição
Tenho para com eles uma dívida de eterna gratidão porque mitigaram a minha sensação de abandono e, com a sua gentileza, alegria e calor humano, conseguiram que, de quando em vez, eu me sentisse feliz.
Os Santos Clara tinham uma inofensiva excentricidade que hoje recordo com ternura: na casa da Rua Visconde de Santarém era exposta, em datas adequadas,a bandeira azul e branca da Monarquia. 
O manarquismo da família era gentil e tolerante, uma espécie de inofensiva excentricidade, e nada tinha a ver com o agressivo anti-republicanismo dos jesuítas das Caldinhas, feroz e abertamente talassas e legitimistas, que faziam anteceder, nos Anuários do Colégio e, suponho, em todos os documentos onde eles figurassem, os nomes dos filhos do pretendente ao trono - e os três eram alunos de Santo Tirso - da sigla S. A. R. significando Sua Alteza Real...
Fazendo curta uma longa história: a minha rejeição do sinistro estabelecimento era tal que, apesar dos meus nove/dez anos, fugi três vezes do Colégio. A primeira fuga terminou, ingloriamente, na Estação de combóios de Santo Tirso; a segunda, teve êxito, embora um êxito relativo, uma vez que cheguei ao Porto, donde fui recambiado no dia seguinte; a terceira, foi a mais breve pois fui apanhado pouco depois de passar o portão.
O que é certo é que a minha irredutível resistência acabou por convencer os meus Pais de que a "solução jesuítica" não tinha pernas para andar.
Ao fim de dois anos, minha Mãe voltou a Portugal e eu embarquei com ela no paquete Pátria, na viagem que já aqui relatei.






















29.1.12

Errâncias V


Não será por isso que o dia ficará na História mas a verdade é que nasci a 4 de Setembro de 1943, na belíssima Porto Amélia, junto ao Índico, na casa  (onde também ele nasceu) mostrada na foto abaixo, enviada pelo Lelo.


Casa em que nasci em Porto Amélia, que é hoje 
uma loja de materiais de construção. 
Já antes tinha sido lojoa mas de material
 eléctrico – a Electro Pamélia.

Cedo me levaram meus pais (soa um pouco a “Menina e Moça”...) para não muito longes terras, isto é, para o Natupile.
Da minha mais tenra infância na machamba, já aqui falei.
Com a entrada na Escola, as visitas de meus Pais a Montepuez (cerca de 50 Km de distancia) tornaram-se mais frequentes, enquanto eu era acolhido em casa da Tia Conceição e do Tio Teixeira, junto dos meus primos Fernanda e Zé Maria e da Avó Nazaré (ver aqui).
Na fila de trás: uma marrussi, a Maria Cândida,
aTia Conceição e a Fernanda . Na da frente, eu e o
A.ugusto Zé
Da Escola, recordo-me de algumas aulas dadas nas instalações do Clube (o Glorioso Atlético!), talvez devido a obras no outro edifício; lembro-me do Professor Bouça, um senhor que infundia um salutar terror nos seus discípulos, ostentava umas ameaçadoras e hirsutas sobrancelhas e fazia generoso uso da “menina de cinco olhos” e da cana, esse eficiente auxiliar pedagógico.
Da casa da Tia Conceição nessa época, recordo vividamente uma cena que muito me impressionou: pela primeira vez vi uma galinha degolada a correr, às voltas, sem cabeça e sem direcção. Julgo que tive alguns pesadelos e, muito mais tarde, ao ler uma descrição assaz realista da decapitação de Luís XVI na guilhotina parisiense, afirmando o autor que os olhos e a boca do infeliz Capeto ainda se abriram e fecharam convulsivamente quando o carrasco Sansão mostrou a cabeça já decepada à populaça, revivi a cena da galinha e acreditei piamente que o rei ou, melhor, a sua cabeça sobrevivera, por instantes, à máquina do Dr. Guillotin..
A propósito de galinhas, foi também por essa altura que o gang infantil da tribo encetou uma série de experiências científicas de “hipnotização” de galináceos. O procedimento era o seguinte: agarrada a ave, metia-se-lhe a cabeça debaixo da asa e desenhava-se um círculo na areia à volta do animal, enquanto se pronunciavam, com voz cava, alguma palavras “hipnóticas”, ordenando que não ultrapassasse a linha marcada. Ora acontecia que a galinha, sendo reconhecidamente o mais estúpido dos animais, ficava quieta, sem fazer sequer qualquer tentativa de retirar a cabeça da (incómoda) posição.
Uma outra descoberta científica semelhante, na impressão causada, à da galinha sem cabeça, foi a da cauda da lagartixa que, uma vez cortada, continua a contorcer-se freneticamente durante bastante tempo. Temo que esse fenómenos tenha dado origem a alguns actos de grande crueldade praticados contra um número indeterminado de lagartixas; a única desculpa que me ocorre, é que é o experimentalismo que faz avançar a ciência e como dizia o clássico “a experiência é a madre de todalas cosas”. Era um grupo de crianças sedentas de saber e não um bando de energúmenos.
Também somos culpados do assassinato de uma pacífica cobra (não tenho a certeza se era pacífica e, provavelmente, não o era). 
Matei (ou ajudei a matar) algumas outras, a última há muito pouco tempo, na Residência da Embaixada de Portugal em Malta; mas aquela do quintal da casa da Tia Conceição foi a primeira. 
Experimentei, pela primeira vez, um sentimento que, em mim, foi sempre menos forte e apetecido do que para um grande número de pessoas: a satisfação da caça, essa manifestação ancestral que está, talvez, na nossa memoria genética (se é que isso existe).
A sensação de euforia não foi menos intensa da que tive quando, muitos anos mais tarde, abati o meu primeiro e único elefante.
“Abati” é uma forma de dizer; apesar de o primo Junqueiro me garantir que sim, mantive para sempre a desconfiança de que ele também disparara e que foi dele o tiro fatal.
A casa da Tia Conceição  é um dos lugares da minha infância cuja lembrança permaneceu mais vívida.
(Clicar aqui para ver a casa na actualidade) .


24.1.12

Errâncias IV


Meu Avô António Augusto e meu Pai chegaram a Moçambique nos idos de 1930.
Nessa altura (e até bastante tarde na história do colonialismo português) era exigida, a quem quer que desejasse emigrar para as possessões coloniais, uma “carta de chamada”, uma espécie de termo de responsabilidade de alguém já lá instalado.
Algodão no Natupile-meu Pai à direita
A “carta de chamada” não era mais do que uma forma de manter sob rigoroso controlo do Estado a população branca que iria,  em nome da “nação portuguesa”,na linguagem pomposa do Acto Colonial de 1930, “desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se compreendam”.
O responsável da “carta de chamada”  foi um parente, cunhado de minha Avó Amélia, o Tio Sobral.
Este era uma figura invulgar, um velho pioneiro larger than life, casado com a Tia Ana Sobral, de quem se dizia ter sido a primeira mulher branca a habitar, de forma permanente, o norte de Moçambique.
A Lena num Pomar no Natupile
Originários de Freixo de Espada à Cinta, deram o nome de Nova Freixo à Vila de Cuamba,  o que perdurou até 1975, quando, por fim, a povoação voltou à sua inicial e legítima designação.
Os bustos deste casal ornamentaram o principal jardim de Cuamba e eles foram, durante muitos decénios, uma espécie de patronos da Vila, os principais proprietários agrícolas e do comercio da região.
Este Tio Sobral tinha decidido abandonar a zona de Montepuez.
Deixou, então, uma machamba que possuía, o Natupile, a meu Pai.
Pé descalço e boa-vai-ela-Turita e eu
Rezam as crónicas que terá dito a meu Pai: “Agora, governa-te...”.
O Natupile foi, desde a primeira infância, uma espécie de “lar primordial” – mesmo quando vivíamos em Montepuez, eu sentia que estávamos de passagem, que a nossa estadia não era permanente porque a “casa” a verdadeira casa, era o Natupile.
A minha Irmã Maria Helena nasceu no Natupile e , juntamente com ela e com o Turita, foi lá que vivi os primeiros anos da meninice.
Lá li as primeiras revistas (“O Mosquito”, o “Mundo de Aventuras”) e os primeiros livros (Salgari, Paul Féval, Ponson du Terrail, Dumas).
Lá disparei a primeira pressão de ar, uma Diane, e a primeira espingarda a sério, a Flaubert .22; lá brinquei, tive medo das feras (quando um leão rugia, os “crescidos” diziam que “o leão está a cantar”, uma forma de afastar o terror nocturno inspirado pelos animais selvagens), encantei-me com os primeiros "bichos", cães, gazelas e periquitos.
O som de um motor de automóvel ouvia-se a dez ou quinze quilómetros de distancia e desencadeava uma enorme excitação, porque significava que provavelmente íamos ter visitas.
Nenhum dia era igual ao outro, embora, na minha infantil imaginação, eu confundisse sossego com monotonia.  
O Natupile era a “casa” e era para lá que voltámos sempre.  



16.1.12

Errâncias III



O Sulemane comigo ao colo (detalhe de uma foto) 
O Sulemane acompanhou-me durante toda a minha infância.
Estava encarregado de velar pela minha segurança, em primeiro lugar, mas também pelo meu bem-estar. Encargos pesados, que incluíam defender-me de outros e outras coisas e de mim próprio, assegurar-se de que a alimentação era minimamente aceitável (evitar, por exemplo, que metesse na boca objectos ou materiais inadequados…), tarefas, enfim, de alta responsabilidade e de execução nem sempre fácil.
O Sulemane fazia tudo isto com bonomia, um permanente sorriso e uma dedicação total.
Foi envelhecendo ao meu lado, sempre presente e sempre protector.
Era muçulmano (o nome, corruptela do arábico Suleimane que, por sua vez, traduz o nome Salomão) embora, na época, isso nada significasse para mim.
Deixei de vê-lo, se bem me recordo, quando vim para Portugal e para o Colégio de Stº. Tirso, nos idos dos anos cinquenta.
Terá morrido por essa altura.
Ao longo da minha vida, pensei muitas vezes nele. Sempre com saudade.

15.1.12

Errâncias II


Minha Avó Amélia (Teixeira Dias), nasceu em 1887, em Freixo de Espada à Cinta.
Quando meu Avô morreu, em meados dos anos cinquenta, deixou Moçambique e voltou a Portugal, onde passou a viver em casa da filha mais nova, a Tia Fernanda.
Para mim, como já escrevi antes, tinha uma aura romanesca que nem mesma a sua pequena estatura e o envelhecimento prejudicaram.
Devo-lhe, sei-o agora, o gosto pelos livros e pela literatura, amores para os quais despertei muito jovem.
Sobreviveu por muitos anos ao seu marido e morreu, já depois de 1974, na casa de minha Tia Fernanda, na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro.
Meu Pai estava em Portugal, onde viera passar algum tempo.
Impressionou-me muito vê-lo chorar.

10.1.12

Errâncias I



De meu Avô paterno guardo o nome, alguns traços fisionómicos e, sobretudo, a minha primeira memória consciente: estou sentado no chão, provavelmente na varanda do Natupile, o Avô está ao pé, sentado num cadeirão com almofadas; aproxima-se um cão; não tenho medo mas o Avô enxota o animal. Fico desiludido porque queria brincar com ele.
Morreu em 1955 ou 56, estava eu no Colégio de Stº. Tirso e essa foi a primeira morte no círculo familiar mais próximo.
O que sei dele, da sua vida, da sua personalidade, das suas histórias é uma mistura de lembranças isoladas e imprecisas, como a que relato acima, de fragmentos de conversas e, provavelmente, de muitas memórias reconstruídas que podem ser, por isso, interpretações subjectivas.
Seja como for, ele tinha para mim uma dimensão aventureira e quase camiliana que se baseava numa história de amores contrariados, raptos e fugas nocturnas. Assim, pertencendo a uma classe desfavorecida, o jovem António Augusto, sapateiro de profissão, tomou-se de amores, que foram correspondidos, pela bela Amélia, que pertencia a famílias com alguns pergaminhos, muito orgulhosa (minha Avó ainda o era) dos seus laços de parentesco com a celebridade regional e nacional, o seu conterrâneo poeta e político Abílio Guerra Junqueiro, o d’“A Velhice do Padre Eterno” e do “Finis Patriae”.
Não sei se o meu Avô o faria mas estou seguro que minha Avó Amélia lia as novelas de Camilo e outros relatos romanescos; poesia, essa lia certamente e lembro-me de a ouvir dizer versos de grandes poetas, que me estimulava a decorar, alguns dos quais nunca mais esqueci, como o “Camões comparado / aos mais escritores / nem entre os maiores / foi sempre igualado”, o soneto de João de Deus.
Terá sido ela, imbuída de espírito folhetinesco, a idealizar o rapto e a fuga?
Creio lembrar-me de referências a uma tentativa de emigração para o Brasil mas não sei em que altura da vida, se antes ou depois do romântico rapto; na verdade, não sei mesmo se a tentativa aconteceu.
Quanto aos amores contrariados e ao rapto, julgo serem recordações mais sólidas mas, ainda assim, talvez coloridas pela minha própria imaginação romanesca…
Mas o que é certo é que o casal teve três filhas Eugenie e Claudine (na forma francesa, nacionalidade que adoptaram por terem ficado a viver em França), mais velhas que o meu Pai, e uma mais nova, Fernanda, nascida naquele país mas que regressou a Portugal, onde foi Professora de francês, ( no Liceu Charles-Lepierre, por exemplo).
Conheci as três – as duas primeiras durante a minha primeira longa estadia em França, a última em Lisboa, onde nos acolhia.
Com ela passou a viver a Avó Amélia quando enviuvou.
Com laivos de folhetim romântico ou não, o casamento de Amélia e António produziu, entre os seus frutos, o pequeno Artur Augusto, nascido às duas horas e trinta minutos do dia Primeiro de Dezembro de 1913.
A família emigrou para França alguns anos depois, quando a paz se instalou na Europa, depois da hecatombe de 14/18. Sei que habitou Lyon.
Em França, o meu Avô António Augusto subiu um degrau na escada da ascensão social: a guerra deixara milhares de estropiados e o jovem (e talentoso, presume-se) sapateiro tornou-se um artesão protésico, executando trabalhos para os mutilados da guerra.
Meu Pai e as irmãs, como acontece com a maioria dos emigrantes portugueses, adaptaram-se com facilidade ao novo país; falavam, claro, o francês melhor do que o português.
Eram os tempos em que a “Escola era risonha e franca”, expressão que meu Pai usava muito, bebida no poema francófilo e franco-patriótico de Alberto Antunes, um dos que a Avó recitava, embalada de nostalgia.
Mas a euforia da Paz que pusera termo à “guerra para acabar com todas as guerras” foi-se esvanecendo; os anos vinte e trinta assistiram ao avolumar das nuvens escuros que prenunciavam um nova e terrível tempestade europeia. Meu tinha sede de aventura e, nessa época, a última fronteira era África.