Mostrando postagens com marcador Citações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Citações. Mostrar todas as postagens

25.3.12

Citação XVI

Navegação Ponto por Ponto: na Segunda Guerra Mundial servi como primeiro imediato num cargueiro de abastecimento do exército baseado nas ilhas Aleutas, onde o tempo era tão mau que raramente víamos o sol quanto mais a lua e as estrelas; isto fazia com que fosse quase impossível utilizar a bússola para traçar uma rota e, em vez disso, dependíamos de mapas onde tínhamos memorizado vários pontos de referência como guias, processo conhecido por "navegação ponto por ponto" que comportava riscos óbvios (não possuíamos radar). Quando estava a escrever este relato da minha vida e época desde Palimpsest, senti-me como se estivesse novamente a lidar com esses cabos e rochedos no mar de Bering, que tinha navegado tantas vezes com uma bússola que o tempo tornara inoperante.

Navegação Ponto por Ponto - Memórias 1964-2006
GORE VIDAL
Ed. Casa das Letras/Oficina do Livro - Nov. 2007 

12.3.12

Citação XV


(...) Na parábola dos mapas e no conto "Funes, o Memorioso", Borges ensaiou celebremente um argumento paralelo: a reprodução total é tão inútil como a memória total. O que somos é tão moldado pelo que lembramos como pelo que esquecemos. Pensar é generalizar, e também separar o trivial do indispensável, por vezes deixando que essa separação seja decidida á nossa revelia. A justaposição inspirada que origina uma boa ideia, uma boa frase, ou uma boa piada é tão capaz de surgir de algo que recordamos subitamente como de uma qualquer ligação que se deteriorou sem darmos por isso. O preço a pagar pela fuga gradual do passado - ter de indagar onde meti aquela cena, ou quem é aquele gajo, ou arriscar a contar a mesma piada duas vezes - é pequeno comparado com a fértil vivacidade que isso traz ao presente.
Funes tornara-se tão laborioso na arte da memória que recuperar um dia lhe ocupava um dia inteiro.
A opção sensata e equilibrada é demorar muitos anos a esquecê-lo, um interessante bocadinho de cada vez. 


Rogério Casanova
Pastoral Portuguesa
Revista LER - Fevereiro 2012  Nº 110


Rogério Casanova

26.2.12

Citação XIV



De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-Ias voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória.

Henri Cartier-Bresson
O Momento Decisivo

2.2.12

Citação XIII


Não acontece apenas que certas pessoas têm memória e outras não (...), mas, mesmo com memórias iguais, duas pessoas não se lembram das mesmas coisas. Uma terá prestado pouca atenção a um facto do qual a outra guardará um grande remorso, e em contrapartida terá apanhado no ar como sinal simpático e característico uma palavra que a outra terá deixado escapar quase sem pensar. O interesse de não nos termos enganado quando emitimos um prognóstico falso abrevia a duração da lembrança desse prognóstico e permite-nos afirmar em breve que não o emitimos. Enfim, um interesse mais profundo, mais desinteressado, diversifica as memórias das pessoas, de tal modo que o poeta que esqueceu quase tudo dos factos que outros lhe recordam retém deles uma impressão fugidia. 
De tudo isso, resulta que, passados vinte anos de ausência, encontramos, em lugar de esperados rancores, perdões involuntários, inconscientes, e, em contrapartida, tantos ódios cuja razão não conseguimos explicar (porque esquecemos também a má impressão que causámos). Até da história das pessoas que conhecemos melhor esquecemos as datas. 
Marcel Proust
O Tempo Reencontrado

27.1.12

Citação XII




Se destacamos essa característica flutuante, mutável, da memória, tanto individual quanto coletiva, devemos lembrar também que na maioria das memórias existem marcos ou pontos relativamente invariantes, imutáveis. Todos os que já realizaram entrevistas de históriade vida percebem que no decorrer de uma entrevista muito longa, em que a ordem cronológica não está sendo necessariamente obedecida, em que os entrevistados voltam várias vezes aos mesmos acontecimentos, há nessas voltas a determinados períodos da vida, ou a certos fatos, algo de invariante.
É como se, numa história de vida individual - mas isso acontecei gualmente em memórias construídas coletivamente houvesse elementos irredutíveis, em que
o trabalho de solidificação da memória foi tão importante que impossibilitou a ocorrência de mudanças.
Em certo sentido, determinado número de elementos tornam-se realidade, passam a fazer parte da própria essência da pessoa, muito embora outros tantos acontecimentos e fatos possam se modificarem função dos interlocutores, ou em função do movimento da fala.

Quais são, portanto, os elementos constitutivos da memória, individual ou coletiva?

Em primeiro lugar, são os acontecimentos vividos pessoalmente. Em segundo lugar, são os acontecimentos que eu chamaria de "vividos por tabela", ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer.

(...)

Além desses acontecimentos, a memória é constituída por pessoas, personagens. Aqui também podemos aplicar o mesmo esquema, falar de personagens realmente encontradas no decorrer da vida, de personagens freqüentadas por tabela, indiretamente, mas que, por assim dizer, se transformaram quase que em conhecidas, e ainda de personagens que não
pertenceram necessariamente ao espaço-tempo da pessoa. Por exemplo, no caso da França, não é preciso ter vivido na época do general De Gaulle para senti-lo como um contemporâneo.

Além dos acontecimentos e das personagens, podemos finalmente arrolar os lugares.

Existem lugares da memória, lugares particularmente ligados a uma lembrança, que pode  ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no tempo cronológico.
 Pode ser, por exemplo, um lugar de férias na infância, que permaneceu muito forte na memória da pessoa, muito marcante, independentemente da data real em que a vivência se deu. Na memória mais pública, nos aspectos mais públicos da pessoa, pode haver lugares de apoio da memória, que são os lugares de comemoração.   

MEMÓRIA E IDENTIDADE SOCIAL
Michael Pollak (1987)


3.1.12

MEMÓRIA COLONIAL VI



O actual Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, nasceu em Vila Nova de Foz Côa e nunca, ao que parece, viveu permanentemente em Lourenço Marques ou em qualquer outro ponto de Moçambique. 
Segundo as suas próprias palavras, antes de escrever o livro de que aqui falo, só visitou Moçambique cinco vezes, quatro delas para prepara a obra.
E, no entanto, quem ler o seu romance ( policial? ) "Lourenço Marques" (Edições ASA, 2002) e não conhecer esse facto ou a biografia do autor, pensará que se trata de alguém com fortíssimas ligações à cidade que dá o nome ao livro e, certamente, de alguém que aí mergulhou fundo na vida, durante os anos sessenta e setenta.
Se esse leitor desprevenido tiver conhecido a Lourenço Marques dessa época, encontrará tantas referências familiares, tantos nomes de pessoas e locais, tantas expressões que não duvidará estar em presença de alguém que talvez tenha conhecido e que se abriga, agora, atrás de um pseudónimo.
Como já disse, não é o caso.
O livro parte de um enredo policial, género muito utilizado pelo autor, mas é na verdade, um exercício de "memória reconstruída" (de que já tenho falado neste blog) pelo personagem principal, Miguel, que volta, depois de vinte anos, a Moçambique, numa demanda quase mística de uma mulher que conhecera na "antiga" Lourenço Marques e que procura por todo o país (Maputo, Beira, Pemba, Ilha de Moçambique, Nampula, Lichinga...) e que é na verdade, a peregrinação aos locais da memória.
É claro, "o poeta é um fingidor" e esta nostalgia que Miguel sente não é a do autor, como não são do autor as recordações plasmadas no texto; esta nostalgia, estas recordações, são a busca de uma "cidade perdida" e um pouco mítica, "a Cidade das Acácias" envolta no "Azul do Índico" ( título da edição brasileira), uma cidade localizada num país que só sobrevive na memória dos que a (e lá) viveram.
Para escrever este livro, Francisco José Viegas deve ter feito intensíssimas e exaustivas pesquisas, consultado muitos documentos, ouvido muitas memórias.
Percorrem o livro pormenores como os nomes da equipa completa de basquete do Sporting de Lourenço Marques, de locutoras do Rádio Clube de Moçambique, do famigerado "Zeca Russo",  locais como o Piri-Piri, a Cristal, o Hotel Cardoso, expressões idiomáticas que são habituais, como "maningue" ou "kanimambo" mas também outras como "canganhiça", "xicuembo" ou "uma quinhenta", que já o são menos
Leiam-se, por exemplo, esta passagens (de que consta o nome de Cansado Gonçalves que eu já tinha citado AQUI;

(...) tenho saudades de Quelimane, de Mocuba, de Gurué, que nomes eu te atirava à cara, o nome dos miúdos que andaram no Liceu Pêro de Anaia, na Beira, as histórias das raparigas da Bartolomeu Dias, em frente às Torres Vermelhas (...) um abraço maningue apertado, gente chunguila, sem canganhiça, que nomes eu te atirava à cara, Venda. Tchova, tchova! Tchova a memória. Os nomes do professor Pinto dos Santos, Heliodoro Frescata, Cansado Gonçalves, Domitila Apolinário, Elisa Gouveia, Prata Dias, Zeca Afonso, o advogado Barradas a perseguir os fiscais da câmara e da polícia por causa das multas de estacionamento que ele julgava ilegais.

E, contudo, nesta memória reconstruída de Lourenço Marques não perpassa qualquer simpatia pelos "bons velhos tempos" ou branqueamento da sociedade colonial, ainda que se diga, a certa altura que a cidade agora é suja, "com merda onde deviam estar flores", consequência nefasta (entre outras) da guerra civil e da catastrófica experiência "socialista".
Francisco José Viegas escreve bem, escorreitamente. A história policial que serve de enredo ao romance é interessante e prende a atenção do leitor.
Mas...vou arriscar, talvez sem razão: só sentirá plenamente o prazer da leitura deste livro quem tiver vivido, ainda que por interposta pessoa, em Moçambique ou em Lourenço Marques ou mesmo em Maputo

Francisco José Viegas
"Lourenço Marques"
Edições ASA (2002)














2.1.12

CITAÇÃO XI




O termo memória colectiva é original do sociólogo francês Maurice Halbwachs que o
define da seguinte forma:

“Memória colectiva é o processo social de reconstrução do passado vivido e experimentado por um determinado grupo, comunidade ou sociedade. Este passado vivido é distinto da história, a qual se refere mais a fatos e eventos registados, como dados e feitos, independentemente destes terem sido sentidos e experimentados por alguém.”  (HALBWACHS, Maurice. Fragmentos da la Memoria Coletctiva)


A comunicação e o pensamento dos diversos grupos da sociedade estão estruturados em marcos, na verdade marcos sociais da memória. Os marcos da memória colectiva podem ser divididos em marcos temporais e marcos espaciais. Por marcos temporais entendem-se os fatos e períodos que são considerados socialmente significativos, por exemplo; uma festa, nascimento de alguém, mudança de estação, etc., onde uma recordação é reconstruída. Os marcos espaciais da memória colectiva mantêm a memória viva por mais tempo, pois é caracterizado pela lembrança ou recordação a partir de lugares; um edifico ou um lugar específico.
Halbwachs dedica uma investigação mais pormenorizada a respeito dos espaços da memória.

“Não é certo que para poder recordar é necessário se transportar com o pensamento fora do espaço, pelo contrário, é a imagem do espaço que, em razão de sua estabilidade, nos dá a ilusão de não mudar através do tempo, e de encontrar o passado dentro do presente, que é precisamente a forma em que pode definir-se a memória, somente o espaço é tão estável que pode durar sem envelhecer nem perder alguma de suas partes.”   ( ibidem)

A memória é então o passado que se encontra no presente, e o espaço é fundamental
para isto, pois as recordações serão sempre vivas ao deparar-se com ele.


CLAUDINEI FERNANDES PAULINO DA SILVA
 "A Teoria da Memória Coletiva de Maurice Halbwachs
em Diálogo com Dostoievski : Uma Análise Sociológica
Religiosa a partir da Literatura"


4.12.11

Citação X

As autobiografias são compostas por recordações pessoais, a totalidade das nossas experiências, incluindo as experiências dos planos que fizemos para o futuro, sejam eles precisos ou vagos. O eu autobiográfico é uma autobiografia feita consciente. Faz uso de toda a história que memorizámos, tanto recente como remota. Estão incluídas nessa história as experiências sociais das quais fizemos parte, ou das quais gostaríamos de ter feito parte, bem como as recordações que descrevem as nossas mais refinadas experiências emocionais, nomeadamente as que possam ser classificadas de espirituais.

António Damásio "O livro da Consciência - A Construção do Cérebro Consciente"

Ed. Círculo de Leitores, 2010

15.11.11

Citação IX



Para todos nós há uma zona de penumbra entre a história e a memória; entre o passado como um registo geral aberto a um exame mais ou menos isento e o passado como parte lembrada ou experiência das nossas vidas. Para os seres humanos individuais essa zona estende-se do ponto onde as tradições ou memórias familiares começam - digamos, da foto de família mais antiga que o familiar mais velho pode identificar ou explicar - ao fim da infância, quando se reconhece que os destinos público e privado são inseparáveis e se determinam mutuamente. (...) A extensão dessa zona pode variar, bem como a obscuridade e a imprecisão que a caracterizam. Mas há sempre essa zona-de-ninguém no tempo. É a parte da história cuja compreensão é mais árdua para os historiadores ou para quem quer que seja. (...) Mas isso não se aplica só aos indivíduos mas também às sociedades.

Eric J. Hobsbawm in "A Era dos Impérios"

8.11.11

Citação VIII




"Trata-se da amnésia, ou seja, do esquecimento, e da anamnese, ou
seja, a tentativa de rememorar para recuperar o que já foi vivido a fim de se
compreender o que se é.  Ora, a amnésia resulta de um processo de selecção que decorre
do facto de a memória, por um lado, reter e registar o que é considerado como sendo
significativo e, por outro, rejeitar e relegar ao esquecimento aquilo que não interessa.  A
anamnese surge como um trabalho de busca da memória, ou seja, como uma tentativa 
de rememorar e de recuperar o passado, prestando especial atenção, neste percurso de
marcha atrás, nas eventuais resistências  à lembrança, já que são estas últimas que
podem, de alguma forma, dar indicações sobre as razões que fizeram com que certos
dados fossem registados e outros abandonados.  O processo de anamnese me interessa
particularmente, pois acredito que é, através dele, que o Outro que existe em cada um (e
que, em geral, não é reconhecido como tal,  uma vez que faz parte do mesmo) vai se
revelando preferencialmente a partir dos impasses criados nas zonas de resistência ao
movimento de rememoração."

Burr e  Memorial do Convento ou a superação do(s) Abuso(s) da Memória
ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS

 Comunicação ao
IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA   

31.10.11

Citação VII



Quanto mais algo é inteligível, mais facilmente se retém, e, ao contrário, quanto menos, mais facilmente o esquecemos. Por exemplo, se eu transmitir a alguém uma porção de palavras soltas, muito mais dificilmente as reterá do que se apresentar as mesmas palavras em forma de narração. Reforçada também sem auxílio do intelecto, a saber, pela força mediante a qual a imaginação ou o sentido a que chamam comum é afectado por alguma coisa singular corpórea. Digo singular, pois a imaginação só é afectada por coisas singulares. Com efeito, se alguém ler, por exemplo, só uma novela de amor, retê-la-á muito bem enquanto não ler muitas outras desse género, porque então vigora sozinha na imaginação; mas, se são mais do género, imaginam-se todas juntas e facilmente são confundidas.

Digo também corpórea, pois a imaginação só é afectada por corpos. Como, portanto, a memória é fortalecida pelo intelecto e também sem ele, conclui-se que é algo diverso do intelecto e que não há nenhuma memória nem esquecimento a respeito do intelecto visto em si. 
O que será, pois, a memória? Nada mais do que a sensação das impressões do cérebro junto com o pensamento de uma determinada duração da sensação; o que também a reminiscência mostra. Realmente, nesta a alma pensa nessa sensação, mas não sob uma contínua duração; e assim a ideia desta sensação não é a própria duração da sensação, quer dizer, a própria memória. Se, porém, as próprias ideias sofrem alguma corrupção, veremos na filosofia. E se isso parece a alguém muito absurdo, bastará para o nosso propósito que pense ser tanto mais facilmente retida uma coisa quanto mais for singular, como se vê do exemplo da novela que acabamos de dar. Além disso, quanto mais uma coisa é inteligível, mais facilmente é retida. Logo, não podemos deixar de reter uma coisa sumamente singular e somente inteligível. 

 Espinoza, Tratado da Correcção do Intelecto

27.10.11

Citação VII

Ao contrário do que muita gente julga, o passado não era mais fértil em acontecimentos do que o presente. Se assim parece, é porque, ao recordarmos os tempos idos, amalgamamos coisas que sucederam com vários anos de intervalo, e porque são bem escassas as memórias que nos chegam genuinamente virgens. É em grande medida devido aos livros, filmes e reminiscências vindas a lume entretanto que prevalece agora a memória de que a guerra de 1914-18 possui um carácter tremendo, épico, que falta à guerra actual.


"Livros &  Cigarros"
George Orwell (1940)
Ed. port. Antígona

24.10.11

Citação VI

Áfricas


Não se faz da memória um novo amor,
por isso nada em mim te procurava.
Não te sonhei sequer quando criança
teu nome não brilhava como estrela.


Porque amor é só feito de surpresa,
mais nos agarra quando nunca o vimos.
Para mim teu país no maoa era
uma confusa mancha de incerteza.


A guerra, a solidão, fim do Império,
vieram dar o rosto da tragédia
ao que eu nunca sonhara como história


que fosse pessoal. Coube-nos todo
este peso da História e esta surpresa
de te reconhecer como eu respiro.


Luís Filipe Castro Mendes
(Poesia Reunida, 1999)



19.10.11

Memória Colonial (III)


Há assuntos que se não podem, honestamente, esconder quando se fala de portugueses que conheceram a África colonial.
 Entre eles, o racismo, a guerra e os retornados, aqueles mesmo que o grande mercado da nostalgia de que já aqui falei, tende a minimizar, relativizar, quando não, pura e simplesmente, apagar e negar.
A ficção portuguesa tem tratado o segundo, a guerra, com alguma frequência, embora com qualidade desigual, sendo que alguns grandes autores já se debruçaram sobre ele, como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo, entre outros.
O racismo, que perpassa, imanente, por toda a literatura de alguma qualidade, sublinhado, edulcorado ou minimizado, não tem sido, que eu conheça, tema central da ficção portuguesa post-colonial.
Restam os retornados. Esta palavra, que designava hipócrita e mentirosamente (uma grande parte dessa onda humana não “retornava” a sítio nenhum, pois nunca aqui vivera), adquiriu, nos anos de brasa de 70, uma tonalidade quase insultuosa. Centenas de milhar de pessoas foram discriminadas, apontadas à execração pública por turbas neo-revolucionárias de lumpen e vira-casacas, em caricaturas cruéis e violentas de ferozes capatazes de chicote em punho, negreiros ávidos e desumanos, votadas ao vexame da “caridade” familiar ou da “ajuda”, esta palavra, pois, sintetiza um drama colectivo de proporções bíblicas. Eles tinham, como diz Lobo Antunes em “Os Cus de Judas”, vivido longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui.
Tal como no caso do racismo, os retornados surgem, aqui e ali, em apontamentos ou retratos em várias obras contemporâneas.
Em 1981, Guilherme de Melo publicou “A Sombra dos Dias”, os retornados vistos da perspectiva de Moçambique e inaugurou, por assim dizer, o sub-género.
Mas agora, passados 30 e tal anos, com a chegada das crianças que abandonaram as ex-colónias à frente do tsunami da Libertação, processadas as memórias, rompeu-se o dique e os retornados aí estão, caso de estudo, assunto de discussão e, para o que aqui interessa, objecto de ficção.
Mais uma vez (et pour cause) com qualidade, propósito e perspectivas diferentes e, por vezes, opostas mas aí está.
Acaba de ser publicado e ainda não o li, saiu há poucos dias.
Mas o que sei já sobre este livro, vai fazer-me correr, ainda hoje, para uma livraria.
Trata-se de “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso.
Dele disse Pedro Mexia, no “Expresso”: Dulce Maria Cardoso encontra o registo certo em todas as cenas, emocionado e seco, triste e orgulhoso, cheio de culpa e incerteza, de palavras africanas que eram o português angolano, de recordações epocais, como fotonovelas ou marcas de uísque. É essa história visivelmente vivida, sem demagogia nem rasuras, que faz de "O Retorno" um romance há muito aguardado.
Do sentimento de rejeição que ela própria sofreu ao chegar a Portugal, diz a autora: Só o consegui perdoar quando o tornei útil. Ou seja, quando percebi que normalmente as vidas são curtas e tudo nos atrasa. Não é à toa que o protagonista do romance é um adolescente. É porque é na adolescência que nos podemos redefinir. E nas convulsões, nos tempos conturbados estamos outra vez numa espécie de adolescência do país. Os retornados mudaram as coisas. As retornadas com as minissaias e o fumo e isso tudo. Isto aqui era mesmo assustador. Não é brincadeira. Lembro-me de pensar que só havia quatro cores: cinzento, bege, castanho e preto. Nó, os de lá, tínhamos um arco-íris. Parecíamos uns palhaços.

E na mesma entrevista (Revista “LER”-Out.2011), sobre uma reflexão que o romance também faz: (…) como é que lidamos com o colonialismo e com a sua memória. Para nós, como povo, isso é determinante. Crescemos na ideia de que fomos um império. Ainda sou dessa geração. E de repente somo só isto. Como aquelas mulheres que foram muito bonitas e agora é só a descer. Isto deprime. Deprime tanto a mulher bonita como deprime um povo.   

O Retorno
Dulce Maria Cardoso
Ed. Tinta-da-China
 1 ª edição: Outubro de 2011
n.º de páginas: 272

16.10.11

Citação V




O Eu autobiográfico 

"À medida que as experiências vividas são reconstruídas  e representadas,  quer numa reflexão consciente, quer num processamento não-consciente, a sua essência é reavaliada e inevitavelmente reagrupada, modificada ao de leve ou em profundidade, no que respeita à sua composição factual e ao acompanhamento emocional. Durante este processo, as entidades e os acontecimentos adquirem um novo peso emocional. Algumas imagens da recordação ficam pelo caminho na mente, outras são recuperadas e realçadas, outras ainda são combinadas de forma tão habilidosa, quer pelos nossos desejos, quer pelos caprichos do acaso, que acabam por criar cenas novas que nunca realmente existiram. É assim que, à medida que os anos vão passando, a nossa história pessoal é subtilmente reescrita. É por isso que os factos podem adquirir um significado novo e que a música da memória soa hoje diferente que há um ano."

ANTÓNIO DAMÁSIO, "O Livro da Consciência - A Construção do Cérebro Consciente"  
Ed. Círculo dos Leitores, 2010 

14.10.11

Memória Colonial (II)


Ao contrário do filme de Diana Andringa, é difícil classificar o livro de Isabela Figueiredo como “delicado”.
“Caderno de Memórias Coloniais” é um livro autobiográfico, um ajuste de contas com memórias de infância, executado com dureza (por vezes com crueza) e, aparentemente, com uma sinceridade brutal.
A autora saiu da Matola aos 11 anos, deixando aí um pai que adora mas sobre o qual não deixa de lançar o seu olhar desapiedado, reconhecendo o racista primário que assimila à sociedade colonial.

“ Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril. Em Lourenço Marques, sentávamo-nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restaurante, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com soda e gelo, e a debicar camarões, tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de segunda, engolindo uma imperial e enjoando tremoços. Os criados eram pretos e nós deixávamos-lhes gorjeta se tivessem mostrado os dentes, sido rápidos no serviço e chamado patrão. Digo nós, porque eu estava lá. Nenhum branco gostava de ser servido por outro branco, até porque ambos antecipavam maior gorjeta. O meu pai, a quem coube a missão de electrificar a Lourenço Marques dos anos 60, nunca quis empregados brancos, porque teria de lhes pagar os olhos da cara.”

A raiva prolonga-se, depois, pela condição de “retornada”:

 «A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, que tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós e o que tínhamos acabado de viver, cobardes filhos de uma puta brava.»

A autora estilhaça o mito do não-racismo da colonização portuguesa, desmascara ao lugar comum piedoso que serve para esconjurar passados obscuros e atirar um manto sobre o lado mais obscuro  de muitos percursos de vida.

"Caderno de Memórias Coloniais"
de Isabela Figueiredo
Ed.Angelus Novus

11.10.11

Memoria colonial ( I )



Diana Andringa é conhecida como uma grande jornalista e é também, coisa que menos gente sabe, uma grande cineasta.



Nascida em 1947 em Angola, no Dundo, sede da Diamang, daí saiu com onze anos, para a “Metrópole”, como então se dizia.



Em 2009, cinquenta anos depois, Diana voltou, pela primeira vez, à sua terra natal, acompanhada pela filha. E filmou esse regresso em “Dundo, Memória Colonial”.



Com admirável delicadeza e com uma ambivalência que ela própria reconhece,

a antiga activista anti-colonial, presa pela PIDE pelo seu envolvimento com os Movimentos de Libertação, "vai confrontar a memória" e, ao mesmo tempo, passar o testemunho aà sua filha Sofia, inocente, esta, do "pecado original" da felicidade infantil em terras de violência:
"Era bom ser criança no Dundo, quando se era branca e filha de engenheiro. Havia espaço para brincar, ruas para andar de bicicleta, animais, liberdade. E criados para nos acompanhar e satisfazer os nossos caprichos. Era bom ser criança e não notar como era artificial e injusto o mundo que nos cercava".


Como diz Jorge Martins aqui : "regressou ao hospital onde nasceu e à casa onde viveu parte da sua juventude plena de boas recordações e espantou os seus interlocutores com a sua brancura africana. E, confesso, tenho uma enorme inveja de ver o brilhozinho nos olhos de todos os portugueses que viveram em África (...) quando recordam esses anos."


É verdadeiro, esse brilhozinho. Só ele pode explicar que Diana Andringa, saída ainda criança da sua terra natal,  depois de toda uma vida  (e que vida!) feita em Portugal, possa afirmar "agora volto porque o Dundo é a minha única Pátria, a mais antiga das minhas memórias". 


O filme existe em DVD.

30.9.11

Citação IV

Encerro esta primeira fase do blog citando Gaspar Correia, o "Políbio português", que foi secretário de Afonso de Albuquerque e, por volta de 1550, escreveu a sua principal obra, "Lendas da Índia":



Nenhuma coisa desta vida humana é tão proveitosa aos viventes como lembrança e memória dos bens e males passados.*


*O poeta Luís Filipe Castro Mendes usa esta citação como introdução ao seu livro (também intitulado "Lendas da Índia") e transcreve-a sem a actualizar: "Nenhuma cousa desta vida humana he tão aproueitiuel aos viuentes que lembrança e memoria dos bens e males passados".


5.9.11

Citação III



A memória é como o homem atingido
pela flecha envenenada: antes que curem
a ferida ele pergunta quem o atingiu,
como se chama, onde está, o seu aspecto.
Então talvez saiba mais sobre a flecha
e o archeiro, mas é demasiado tarde
para ser salvo


Pedro Mexia, "A Flecha Envenenada", in "Em Memória", 2000

 

8.6.11

Citação II

Para continuar a reconstrução de si mesmo, o poeta conta com o auxí-
lio de objetos, como a fotografia, na parede, que lhe faz aflorarem as lembranças de
Itabira e que não o deixa afastar-se de sua origem. Essas lembranças esquecidas, ou
melhor, ocultas na fotografia permitem constituir a sua tradição, revelando as características de sua terra, de seus conterrâneos e, por conseguinte, dele próprio.

IVAN ANTONIO IZQUIERDO - a propósito de Carlos Drummond de Andrade