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9.3.12

The Great White Hunter (revisto e corrigido)

 Nunes dos Santos
Quando era muito pequeno, acreditei, durante algum tempo, que a electricidade só funcionava porque havia uns anõezinhos minúsculos que viviam dentro dos fios, dos interruptores e das lâmpadas e que faziam funcionar aquela coisa que, habituado a ter só a luz nocturna dos petromax ou das fogueiras, eu achava vagamente mágica.
Com os computadores passa-se alguma coisa semelhante: acontecem coisas que que por vezes parecem magia de fadas boas e outras maldades de feiticeiras.
Com o post anterior passou-se uma dessas feitiçarias: sem saber porquê, desapareceu o texto que eu planeara para ser ilustrado pela foto (que agora repito).
Vou, por isso, identificar o fotografado: trata-se de um caçador profissional, que vivia em Balama (vizinho do Natupile, portanto) o Nunes dos Santos.
Era um homem muito moreno, de cabelo ondulado e um farto bigode e um grande caçador. Pelo menos, é assim que o recordo.  
Gosto particularmente desta fotografia e do "ar cinematográfico" do Nunes dos Santos, muito Clark Gable  em "Mogambo" ou John Wayne em "Hatari!".
Já agora: "Hatari" significa "perigo", em swahili.

5.3.12

Claudino Bagorro

O irmão mais velho, António Bagorro, apareceu primeiro por terras de Cabo Delgado. Era regente agrícola e um excelente futebolista. Circulavam, entre nós, rapaziada mais nova, histórias que íamos comentando com admiração e respeito, de que chegara a jogar na equipa principal da Académica de Coimbra, então ainda quase completamente amadora e batendo-se com os mais cotados clubes da Primeira Divisão.
Como não podia deixar de ser, era uma das "estrelas" do Atlético, disputado por clubes de Porto Amélia e de Nampula (onde, se não estou em erro, chegou a jogar).
O Claudino, era de outros futebóis e, em campo, talvez fosse, de vez em quando, árbitro substituto, quando era preciso escolhê-lo entre a assistência.
A popularidade do Claudino tornou-se imparável nos anos 60, com a chegada da tropa, quando estva à frente do bar do Teixera & Ramalho, crismado pelo novo patrão com o imaginativo nome de "Paga Já".
Esta fotografia mostra-o junto ao meu Pai, no Natupile, no meio da manada de vacas.
O cão poderia ser a Laika - o que faria dele uma cadela...

1.3.12

Padre Soares

O Padre Soares foi Director do Colégio Vasco da Gama, em Nampula, que frequentei em 1958/59, juntamente como o meu irmão Turita e os meus primos Beto, Lelo e Augusto José.
Deste Colégio falarei num futuro post da série "Errâncias".
 "Ao amigo Turita of. Entre rosas da minha aldeia com música de
sinos  horizontes de sonho e saudades de África.  Pe.   Soares "

A foto, como se vê pela dedicatória no verso, foi enviada ou entregue ao meu irmão.



Do Pe. Soares perdura (entre outras, claro) uma recordação muito vívida: em 1958, estando no Colégio, fui vítima da "gripe asiática".
Os meu Pais estavam em Montepuez, a quase 500 km de distância.
Já convalescente, lembro-me de o Pe. Soares entrar na enfermaria, com um largo sorriso que sempre o acompanhava. Parou ao lado da minha cama e disse, com a voz estentórea que era outra das suas características: "Recebi um telegrama da tua Mãe a dizer que não podes apanhar a gripe porque é muito perigoso para ti; eu disse-lhe que não havia problema porque havia uma maneira de não apanhares a gripe - cortar-te a cabeça!".
Não foi necessário.
Ao contrário do que se esperaria de um Director de um Colégio religioso, que eu pensava ser uma espécie de "super prefeito", disciplinador e irascível, o Pe. Soares era uma criatura simpática, um vulto protector e bem disposto.
Mas isso não o impedia de, por vezes, usar a sua considerável manápula como instrumento pedagógico.
Nessa época, os castigos físicos de crianças eram permitidos (quando não incentivados) e não ocorria a nenhum de nós que eles constituíssem algo de criminoso.


21.2.12

Safari no Lugenda 2

Outra vez uma fotografia que a Lena assinalou como sendo de um "Safari no Lugenda", tal como a que postei há tempos.
Embora não esteja muito nítida, parece-me reconhecer o meu primo António Junqueiro, tio do João e do José (ver aqui), caçador profissional, aventureiro e outras coisas...
Talvez lhe venha a dedicar um post; ou talvez não.

16.2.12

Daniela

No verso da foto pode ler-se, na a caligrafia infantil da Lena, "Oferecida pela minha querida amiga Maria Daniela".
A Daniela foi o meu primeiro amor, tinha eu sete ou oito anos, e julgo que disputei com o meu primo Beto as suas atenções.
Era muito bonita, a Daniela - e tenho a certeza que continua a ser. Tinha um sinalzinho preto na face e uma pequenina falha triangular dos dois dentes da frente.
 Meu Pai (esq.) com o Pai da Daniela 
Era a filha da Srª. D. Guilhermina e do Sr. Silvestre, Director da SAGAL, e irmã da Carla e do Tozé (?).
A Daniela!
Voltei a vê-la em Lourenço Marques, muitos anos mais tarde, frequentando o Colégio D. António Barroso, onde reencontrou, também, a sua "querida amiga", a minha irmã Lena. 

1.2.12

Sualé, o esgrimista


Hoje, ao almoço, trocando memórias com o meu irmão Turita a propósito do blog, veio à baila o Sualé.
Não tenho fotografia que lhe retenha o rosto sorridente, o ar acriançado, a alegria permanente que o caracterizava e tornava irresistivelmente simpático.
Devia a isso, creio, alguma benignidade de que gozava em casa e que não era, habitualmente, propiciada ao restante pessoal.
Embora bastante mais velho que o Turita, partilhava com infantil entusiasmo as brincadeiras deste, por mais absurdas e inconvenientes que fossem - e Deus sabe como o meu irmão mais novo era fértil e inventivo nessa matéria.
Durante um certo período, dedicaram-se com entusiasmo a uns ferozes duelos de esgrima cujas armas evoluíram rapidamente de canas de bambu para uns enormes facalhões de cozinha.
O inevitável aconteceu e, num golpe mais conseguido, o Sualé atingiu o pulso do seu valoroso adversário provocando um ferimento assaz profundo, de tamanho considerável e que, sobretudo, sangrava abundantemente.
Seguiu-se o previsível: gritos, aflição maternal, algumas ameaças de terríveis castigos para os infractores,  protestos de inocência e arrependimento do Turita.
Quando o alvo da fúria materna se voltou para o Sualé, constatou-se que este tinha desaparecido na natureza. O Sualé foi procurado por toda a parte mas todas as buscas foram infrutíferas: volatilizara-se com a mesma rapidez e determinação com que desferira o golpe fatal.
Passados alguns dias, o Sualé reapareceu. Desconfiadamente, em passos cautelosos, por uma vez de semblante sério, aproximou-se do quintal, pronto a repetir a proeza da rápida fuga ao mais pequeno sinal de perigo. Acocorou-se a um canto, olhando à volta a medir a temperatura, enfrentou valentemente alguns gritos e ameaças de minha Mãe e, passadas umas horas já se ria abertamente, preparado, penso, para outras aventuras e tropelias imaginadaspelo “minino Turita”.
Este ainda hoje exibe com orgulho a cicatriz que nos recorda, à falta de fotografia, o amigo Sualé.

19.1.12

Os Cunha Alegre


No post anterior mencionei o pai Cunha Alegre, a Manela e o Toninho.
Nesta fotografia vê-sa, à esquerda a Srª. D. Maria Luísa Cunha Alegre.
Do lado direito, a minha Mãe.

16.1.12

Errâncias III



O Sulemane comigo ao colo (detalhe de uma foto) 
O Sulemane acompanhou-me durante toda a minha infância.
Estava encarregado de velar pela minha segurança, em primeiro lugar, mas também pelo meu bem-estar. Encargos pesados, que incluíam defender-me de outros e outras coisas e de mim próprio, assegurar-se de que a alimentação era minimamente aceitável (evitar, por exemplo, que metesse na boca objectos ou materiais inadequados…), tarefas, enfim, de alta responsabilidade e de execução nem sempre fácil.
O Sulemane fazia tudo isto com bonomia, um permanente sorriso e uma dedicação total.
Foi envelhecendo ao meu lado, sempre presente e sempre protector.
Era muçulmano (o nome, corruptela do arábico Suleimane que, por sua vez, traduz o nome Salomão) embora, na época, isso nada significasse para mim.
Deixei de vê-lo, se bem me recordo, quando vim para Portugal e para o Colégio de Stº. Tirso, nos idos dos anos cinquenta.
Terá morrido por essa altura.
Ao longo da minha vida, pensei muitas vezes nele. Sempre com saudade.

6.1.12

O Tio Rocha






O Tio Aires Rocha tinha um sotaque madeirense que nunca perdeu completamente e que, complementado por um permanente sorriso trocista, era uma marca distintiva muito pecular.
Quase sempre trajava de branco e o Lelo, seu filho mais novo, legendou esta foto definindo a calça e a balalaica brancas como o traje de que mais gostava.

Mas também me lembro de o ver de fato branco, talvez em ocasiões mais formais.
Já falei dele, a propósito do bar do Teixeira & Ramalho e do aperitivo de antes do almoço, o último whisky pedido já depois do quotidiano recado do empregado que vinha visar "patrão, senhora manda dizer que almoço está na mesa".
Era casado com a Tia Irene, a mais nova das cinco irmãs e minha Mãe antecedia-a na escada descendente das idades.
Dos filhos, Adalberto (Beto) e Lelo (Aurélio, já falei várias vezes e mostrei fotografias, como esta aqui.
Foi em casa deles, em Porto Amélia, que nasci, num dia auspicioso...

20.12.11

"A Viúva", outra vez

A Viúva, como digo aqui, marcava uma espécie de fronteira psicológica entre Porto Amélia e Montepuez.
A propósito de quem seria a "Viúva" que crismara a terreola (Metoro, de seu verdadeiro e agora, recuperado nome), o meu amigo Celestino Gonçalves, que já referi várias vezes no blog, esclareceu-me desta forma.
Ora, "descobri" agora a sucessora da mítica Viúva que, na altura da herança, era (espero) muito bem casada; trata-se de Maria Adelina Assunção, uma Senhora nascida na aldeia de Benfeita (Arganil), em 17 de Setembro de 1928.
Em 1961, foi juntar-se ao marido, César, que já tinha emigrado para Moçambique.
Diz a Senhora: 


Primeiro, estivemos no Chiúre. Depois, fui para o Mirrote. Do Mirrote, fui para o Metorro, que era um cruzamento onde passava toda a tropa, toda a gente. Iam para Montepuez, iam para Nampula, Porto Amélia, que era uma linda cidade, uma linda praia. Eu poucas vezes lá fui. Não tinha tempo de lá ir. E foi assim. Toda a gente ali parava. Era paragem obrigatória.
E, descrevendo o seu negócio, refere-se à Viúva, a verdadeira:
Tínhamos em África quatro casas de comércio bem conhecidas. Casas melhores que qualquer uma aqui na Benfeita. No Chiúre, era à sociedade com gente de cá. A do Metorro é que era só minha. Comprei-a a uma senhora que viuvou lá, que era ali do Minho, Trás-os-Montes. Depois, fiquei com a casa e essa era só minha. Tinha uma em Ancuabe, que também era só minha. E tinha outra lá num cruzamentozito. Andámos para fazer uma em Montepuez, mas, depois, já não chegámos a fazer. Já tínhamos lá o terreno, mas o meu marido morreu.
Em casa, tínhamos o preto. Ia fazer o comer, lavava a roupa, fazia-nos as camas. A gente estávamos no comércio, a atender. Eram casas grandes. Vendíamos tudo! Panos, tudo que era de peixe, peixe seco, polvo seco, açúcar, arroz. Tudo para os pretos.

A D. Adelina não era, provavelmente, má pessoa; veja-se o que diz de umas pauladas que teve que dar: 
Adelina Assunção e a filha Margarida
no Metoro ("Viúva")


Só um dia dei lá umas quatro cacetadas a um preto, porque roubou-me um saco de castanha. Depois, estava lá a polícia preta:
- A senhora agora pegue neste pau e dê-lhe duas cacetadas aqui no rabo, no cu.
E eu dei-lhe. Mas, depois, até fiquei arrependida. 


Tendo morrido o marido César, D. Adelina tornou-se, por assim dizer, tornou-se a "Viúva II": 


Tenho muita pena de Moçambique, muita, muita. Quando o meu marido morreu, eu estava sozinha e não fiquei assim muito bem. Mas, depois, também tinha de vir à Benfeita, porque tínhamos o cemitério, tínhamos que comprar o terreno. De três em três anos vinha cá. Tenho umas quatro ou cinco viagens de avião! É a coisinha melhor que se pode fazer. Ainda tenho pena de não voltar a África ou a um lado qualquer que fosse de avião. E eu vinha, porque gostava também de vir ver os amigos, de ver a família. E foi assim que vim. Foi o que eu fiz melhor. Ficava lá tudo assim como ficou. Minhas casinhas tão boas... Ai, nem me quero lembrar. A casa do Metorro era uma casinha tão boa. Chamavam lá Cruzamento da Viúva. Se deixou saudades... Eu quando falo em Moçambique, choro sempre. Lembro-me de como tinha lá a minha vida bem encarreirada. Mas o meu marido morreu e a vida tinha que continuar. Aluguei as casas aos meus irmãos e vim.


Muito se aprende na net!
Se quiserem saber mais sobre a D. Adelina (e garanto que é um depoimento muito interessante e rico), basta-lhe clicar aqui.



19.12.11

MEMÓRIA COLONIAL V



René Pelissier é um historiador francês que se especializou na história colonial portuguesa e é autor de uma vasta bibliografia em que Moçambique ocupa um lugar de relevo.
Num artigo, intitulado Impérios defuntos, herdeiros batalhadores e publicado em 2004 na Revista Análise Social, Pelissier refere um autor escocês, Fred Reid, e a sua obra In Search of Willie Patterson. A Scottish Soldier in the Age of Imperialism, de 2002.
Escreve René Pelissier:

Mais inesperado ainda, mas sempre sobre Moçambique, vamos citar um texto escocês  entre 1918 e 2000. Trata da biografia de um «obscuro»,redigida por um historiador profissional que reconstituiu a vida do avô, proletário vitoriano, grande amante de mulheres, soldado do império britânico, carteiro, que se ofereceu como voluntário, para acabar como telegrafista militar a norte de Moçambique, correndo atrás dos alemães, do célebre von Lettow-Vorbeck. O mais extraordinário neste trabalho de reabilitação da «ovelha negra» da família é que o autor é cego e, empurrado pela sua consciência profissional, dirige-se pessoalmente ao local (Montepuez e arredores) para
«ver» (pelo menos sentir) como é que este avô desconhecido obteve a military medal pela sua bravura, a 12 de Abril de 1918, numa batalha (Medo) de que ninguém se recorda, nem na Grã-Bretanha, nem em Portugal, nem em Moçambique.
O que Fred Reid diz  das suas tentativas (pp. 97-120) para identificar Medo em Montepuez é apaixonante, mas este Sherlock Holmes com uma bengala branca teria evitado muitos incómodos ao pé das termiteiras se os seus ajudantes e assistentes visuais tivessem contactado especialistas britânicos da bibliografia moçambicana que o teriam orientado, possivelmente, para "A Handbook of Portuguese Nyasaland, reimp. Greenwood Publishing, Nova Iorque,  1969 (p. 204)". Mas, enfim, graças a ele, temos mais uma descrição de Montepuez e do seu «concelho» (o Medo) depois da guerra civil.

Vou procurar o livro de Fred Reid.
Sobre von Lettow-Burbeck, poderá quem o desejar, clicar, na coluna da direita do blog, na secção intitulada MARCADORES, em “Grande Guerra”; quanto ao Medo (ou Meto),tem sido várias vezes referido.







10.12.11

O meu Tio Ramalho, "A Internacional" e o Cabo Mata - 2

Mas o que me enchia as medidas era a história do Cabo Mata que o Tio Ramalho caontava com grande cópia de promenorse e gesticulações, entre risadas e mímicas e que me punham a rir às gargalhadas.
Parece que o Cabo Mata era o garboso Comandante do Posto da Guarda Republicana de 

Ermesinde.
A localidade devia, nos anos 30, ser pequena e o Cabo Mata era uma figura estimada e popular entre as suas gentes.  
Ele era adepto do "Reviralho" e não se entusiasmara com o 28 de Maio, com a Ditadura Militar que se lhe seguiu nem com o Dr. Salazar que herdou, do Exército, o Governo.
Assim, o Cabo Mata fazia fama e proveito de conspirador.
Ora, o salazarismo ainda não estava consolidado e os golpes, as intentonas e as "revoluções" multiplicavam-se e sucediam-se.
A certa altura, chegou a notícia de que um grupo de militares se revoltara no Porto e pretendia derrubar o regime.
O Cabo Mata, paladino da República e miltar brioso, resolveu aderir à revolta: armou os dois soldados que estavam no posto e decidiu marchar sobre a cidade.
Correu célere a notícia de que o bravo Comandante e o grosso das tropas da guarda, de peito feito às balas inimigas, com a coragem dos heróis e o entusiasmo ao rubro, marchava já em direcção ao Porto, pronto a colocar as suas forças ao serviço da Causa.
Nas ruas de Ermesinde ouviam-se palmas e gritos de entusiasmo e encorajamento. Alguns elementos da Banda dos Bombeiros correram para a frente do Cabo Mata e dos seus homens e executaram entusiásticas mrchas militares (ou modinhas folclóricas, não sei bem). Houve colchas nas janelas e as moças, emocionadas com a bravura dos jovens soldados, porventura temendo pela vida desses bravos, atiravam flores e beijos com a ponta dos dedos.
E, garboso e emocionado, peito para fora, barriga para dentro, o Cabo Mata agradecia, saudando a população e gritando vivas à República! 
Os miúdos marchavam, nos passeios, com canas ao ombro, a imitar os valentes.
O ambiente era electrizante.
O destacamento estava já nos limites da Vila, quando chegou, a correr, um funcionário dos CTT com um telegrama nas mãos. A Banda silenciou, cessaram os gritos.
Tristemente, depois de percorrer o telegrama, o Cabo Mata de uma ordem de "meia volta volver" e, juntamente com os seus dois subordinados, regressou ao Posto.
O telegrama dizia que o General Coisa e Tal, os Coronéis Fulano e Cicrano e os restantes oficiais sediciosos, isto é, todos os "revolucionários", tinham sido presos.
A Revolução falhara, o "Botas" ainda ia durar muitos anos  antes do trambulhão da cadeira.
O Cabo Mata foi preso num dos dias que se seguiram. A história não acabava bem mas o valente Cabo não deve ter ficado muito tempo na prisão.
Pelo menos, eu gosto de pensar que não, não ficou muito tempo.

O meu Tio Ramalho, "A Internacional" e o Cabo Mata - 1

 

O Tio Ramalho, depois de assistir às vivas discussões políticas que eu, com algum pedantismo, tinha com meu Pai, acompanhava-me no curto tajecto até à varanda do Bar, assobiando sardonicamente "A Internacional".
Só muito instado e perante a minha estupefacção me revelou, a conta gotas e com grande reserva, no meio de contagiantes risadas, que, na sua juventude, andara "metido na política" e tivera veleidades "revolucionárias".
Detalhe de foto de Celestino Gonçalves
Contou-nos (e repetiu várias vezes a história, a nosso pedido), por exemplo, que, certa vez, em Ermesinde, sua terra natal, participara numa acção contra um grupo de Nacionais-Sindicalistas, os "Camisas Azuis" de Rolão Preto, um Partdo fascista que chegou a ter algum peso na época da Ditadura Militar e que acabou por ser extinto pelo salazarismo que não admitia concorrência à sua direita... (nem à sua esquerda, acima, de baixo ou fosse onde fosse).
Ora, com a cumplicidade de um ferroviário, um grupo que não tinha em excessiva estima a rapaziada de camisa azul, parou o comboio na Estação de Ermesinda e atacou os nazis indígenas, originando uma sarrafusca generalizada.
Na sequência disto, o Tio Ramalho foi levado para a sede da Polícia Política (que, nessa altura, ainda devia usar o nome de PVDE - Polícia de Vigilância e Defesa do Estado - a sigla que antecedeu a da PIDE), no Porto. Acompanhava-o um camarada que tinha a particularidade de ser boxeur e, segundo o relato bem-humorado do Tio Ramalho, uma estatura avantajada e uma força a condizer.
À chegada ao Porto e à sede da Polícia, parece que os presos eram recebidos, à passagem da porta, por um bofetão, a título de boas-vindas.
O Tio Ramalho, não era particularmente corpulento; bom, diria mesmo que era baixote... 
Foi o primeiro a entrar e, quando o agente encarregado das boas-vindas fez o movimento para a proverbial bofetada, o Tio Ramalho abaixou-se e o infeliz agente atingiu em cheio o amigo boxeur; este estava treinado para reagir, quase automatica e institivamente, a qualquer adversário que tentasse atingi-lo, de modo que acertou um impecável jab na cara do "chui" que, segundo a versão ramalhal, ficou imediatamente KO.

8.12.11

Guerra Marques

Com a aproximação da guerra - a qual, cada vez mais, parecia inevitável - começaram a chegar a Montepuez os primeiros contingentes militares.
Por essa altura, já eu navegava  nos mares políticos do anti-colonialismo e da militância clandestina contra o regime.
Por isso, nas breves semanas que passava, em férias, em Montepuez, embora não excluísse quaisquer contactos com os militares mobilizados, também não os procurava.
Foi, por isso, sem particular entusiasmo que verifiquei, numa dessas idas a Montepuez, que um Alferes, Guerra Marques de seu nome, a sua Mulher Isabel e duas loiras e bonitas crianças, filhas do casal, eram, mais do que visitas, presenças permanentes
da casa e que os meus Pais tinham por eles uma amizade
evidente e entusiasmada.
Não demorei muito tempo a compreender a razão: tratava-se de pessoas possuidoras de um grande encanto e pelas quais também eu senti, de imediato, uma forte simpatia.
As crianças, sobretudo, a Paula Maria e a Helena Isabel (creio que não conheci o mais novo, o Pedro Luís) eram irresistíveis. 
(Faço um parêntesis para confessar que não recordaria estes nomes das criançasse não estivessem escritos, repetidamente, nos versos das fotografias, com a caligrafia da Isabel Guerra Marques,  em autógrafos dirigidos aos "Vovô" e "Tia Lai"ou aos "nossos queridos amigos").
Este post justifica-se porque, entre as inúmeras fotografias que recolhi e que tenho usado para ilustrar o blog, encontrei uma tal quantidade de fotorafias  destes Amigos dos meus Pais que poderia, com elas, ilustrar um bom número de outra entradas.
E justifica-se, também, porque a amizade que os meus Pais nutriam por eles e, sobretudo, o carinho que se adivinha no sorriso do meu Pai numa outra foto em que tem uma das meninas ao colo, me enternecem.
A  fotografia da família au complet, no início do post, tem, no verso, a seguinte inscrição, como sempre na caligrafia da Isabel: "Para vós, com um grande abraço de saudades.   Luanda, 1967".
Há fotografias de datas posteriores. Talvez as utilize ainda, se voltar a falar na Família Guerra Marques. 

6.11.11

ALMEIDA



António Carvalho de Almeida (Almeidinha), garboso Aspirante do Quadro Administrativo em Montepuez.
Da esquerda para a direita, as minhas primas Isabel (Belita) Ramalho e Fernanda Teixeira, esta última  futura mulher do personagem central da foto, eu próprio, a minha irmã Lena com uma boneca, os primos Augusto Zé e Teresa Ferreira; atrás do Augusto Zé, alguém cujas feições me são familiares mas cujo nome não me ocorre (tenho a certeza que alguém, em breve, a vai identificar).
Ao casar com a Fernanda, o Almeida tornou-se um pilar da “tribo”, guardião e gestor da sua memória.

3.11.11

Montepuez na Grande Guerra - IV

Paul Emil von Lettow-Vorbeck


Paul Emil von Lettow-Vorbeck (1870-1964) foi um dos mais experientes e destacados Generais alemães.
Nascido no seio de uma família de militares, combateu na China durante a Revolta dos “boxers”, na colónia alemã do sudoeste Africano, a actual Namíbia, e seguidamente, com o posto de Coronel, foi enviado para a colónia da África Oriental alemã, no território da actual Tanzânia, durante o período que nos interessa, e aí comandou as tropas coloniais.
Durante os quatro anos que durou a guerra, com uma força que nunca ultrapassou os 14 mil homens, dos quais 11 mil askari(*) e 3 mil alemães, opôs-se, sempre vitoriosamente, às tropas britânicas, belgas e portuguesas que, no seu conjunto chegaram a ultrapassar os 200 mil soldados.
 Nas suas incursões por colónias britânicas e portuguesas conduziu uma guerra que era uma curiosa misturadetácticas de guerrilha que fazem dele um émulo de Giap e Mao Zedong e práticas cavalheirescas que, como lídimo junker, ainda presava; por exemplo, tinha por hábito oferecer a liberdade aos oficiais inimigos aprisionados contra a promessa de não voltarem a combater.
Conseguiu transmitir aos seus homens, incluindo aos “ferozes” askari, essa mistura de férrea disciplina e de princípios “morais” e os seus subordinados seguiam-lhe o exemplo.
Capitão Francisco Curado
Assim, um dos poucos ofiviais portugueses que ofereceu alguma resistência digna desse nome às tropas alemãs, o Capitão Francisco Curado que as enfrentou heroicamente na batalha da Serra de Mecula, situada na actual Província do Niassa, viu o comandante das forças inimigas, o General Whale (comandante da coluna que ocupou, durante meses, a região de Montepuez), além de prestar honras militares ao Alferes Viriato de Lacerda (**), morto nesse combate, e de lhe oferecer a liberdade em troca do compromisso acima referido que ele recusou, libertá-lo à mesma e oferecer-lhe uma espada como prova de reconhecimento do seu comportamento heróico.
As tropas de von Lettow transportavam consigo os seus meios de subsistência, incluindo uma pequena manada de vacas, tinham instruções para não hostilizar as populações, o saque e a pilhagem fora das operações militares eram punidos com fuzilamento.
Terminada a guerra, Paul Emil von Lettow-Vorbeck regressou à Alemanha onde, apesar da derrota, teve direito a um desfile triunfal.
Por tradição familiar e convicção de classe, von Lettow era um anti-comunista ferrenho e participou na repressão aos Spartakistas comunistas.
No entanto, nunca pactuou com o nazismo ou com Hitler e, enquanto deputado ao Reichtag (1928-1930) participou de várias tentativas (frustradas) de criar uma coligação anti-nazi.


(*)Askari - palavra swahili que significa “soldado” e serviu para designar as tropas nativas que combateram na África Oriental. Corresponde aos cipaios, palavra que, por sua vez, é proveniente do híndi  shipahi.


(**)O Alferes Viriato de Lacerda, promovido ao posto de  Tenente a título póstumo, foi um dos "Cadetes da Rotunda" qe lutou ao lado de Machado dos Santos em 5 de Outubro de 1910.






28.10.11

Montepuez na Grande Guerra - III


O General von Lettow, que comandou as tropas alemãs vindas do Tanganika, então integrado na Deutsch - Ostafrika (África Oriental Alemã), que invadiram Moçambique e cujos dados biográficos serão objecto de um post específico, foi o mais notável militar alemão da sua geração, tendo combatido no Extremo Oriente, em África e na Europa.



Paul Emil von Lettow-Vorbeck
 Um junker prussiano, imbuído ainda do "espírito dos cavaleiros teutónicos" que terminou, exactamente, com a Guerra de 14-18 e que já esteve completamente ausente na II Guerra Mundial, foi, além disso, um guerrilheiro cujas acções e iniciativas não ficam atrás das de Giap ou "Che" Guevara.
Encontrei no Youtube este interessante vídeo onde von Lettow-Vorbeck aparece várias vezes e que, segundo julgo, mostra, numa das gravuras da época, a travessia do Rovuma.

27.10.11

Henrique Grangeia

H. Grangeia assinalado a encarnado

Já falei aqui do Henrique Grangeia.
A fotografia que ilustra o texto foi “picada” no blog Voando em Moçambique, ao qual peço desculpa pelo atrevimento.
O Henrique Grangeia foi, durante muitos anos, o delegado da SAGAL em Balama e, portanto, nosso vizinho. Por isso, eram bastante frequentes as visitas recíprocas, as quais o Turita e eu apreciávamos sobremaneira porque a presença do Henrique era a garantia de grandes gargalhadas e numerosas loucuras.
Era um aficionado da Festa Brava e mantinha viva, mesmo “enterrado” nos confins de Cabo Delgado, a chama da sua paixão taurina, sabia de cor as biografias dos grandes matadores, demonstrava como se faziam chicuelinas ou passes de peito, veronicas e gaoneras, o que eram tremendismos, etc..
Entre os jornais de Lisboa, de datas arqueológicas e amarelecidos pelo passar dos tempos mas religiosamente preservados – já veremos porquê – havia um ror de revistas taurinas espanholas, gastas de tanto serem manuseadas.
Guardava, também, um vistoso traje de luces (dourado e bordado a vermelho, (se esta minha memória móvel me não atraiçoa) que, em ocasiões mais “solenes” ou acessos mais pungentes de saudade, era envergado pelo criado (cujo nome, irritantemente, me escapa) que servia à mesa, ao som de paso dobles e seguidillas.
Nessas ocasiões, era de regra que el patron só se dirigisse ao serviçal em castelhano, o que provocava inevitáveis e alvoraçadas confusões quando se tratava de acorrer aos caprichos (por vezes estapafúrdios)  do Henrique Grangeia.
Na falta de touros de lide ou garraios adequados, o H. Grangeia toureava, com majestosos floreios do capote e arriscados passes de muleta, no quintal transfigurado em cenário de Las Ventas em Madrid, um velho bode, o Elias, animal de tamanho apreciável para a espécie mas de lide difícil pela tendência para ora se meter em tábuas ora investir, de cornos não afeitados, com um salto súbito que, não raras vezes, punha em perigo faena e maestro.
Um outro ritual que o Henrique acarinhava era o matabicho.
Na noite anterior, avisava o criado da hora a que devia ser acordado.
Ao chegar o momento, sobraçando uma pilha dos velhos jornais de que falei acima, alguns de muitos e muitos anos antes, o criado postava-se à janela do quarto e desatava a pregoar, no tom e com a “música” que lhe fora diligentemente ensinada, “Olh’ó Século, olh’ó Diário!.. traz a desgraçadinha….”. O Grangeia escolhia, então, o periódico que nessa manhã lhe ocorresse e, sentado à mesa do matabicho, de roupão de seda, acompanhava solenemente a refeição com uma atenta leitura da gazeta.
Durante um jantar que ficou célebre, na varanda da casa de Balama, o Henrique Grangeia decidiu trocar de lugar e de funções com o seu dedicado empregado. Desconfiado sobre o que se seguiria, este só por insistentes ordens do patrão, que já estavam próximas da ameaça, acabou por se sentar ao topo da mesa, onde ouviu as instruções: durante o jantar, era ele o patrão e o patrão o serviçal. De nada valeram objecções, tentativas de recusa, pedidos angustiados.
Montado o enredo de opera bufa, iniciou-se o repasto.
O “patrão por um jantar” era instado a comportar-se como tal e, a pouco e pouco, foi entrando no jogo, conversando cada vez mais descontraído e já a imitar os modos e os maneirismos do Henrique.
Finalmente, depois de servir os convidados, este aproximou-se do rapaz e ofereceu-lhe a travessa.
Com firmeza, irritação e um gesto desabrido, o moleque gritou:”Ó preto ordinário, não sabes que tem que servir pelo lado direito, cabrão?!”.
Mais tarde, a lenda contava (como se sabe “quem conta um conto…”) que o Henrique Grangeia tinha despejado a travessa pela cabeça do rapaz abaixo.
Não é verdade; foi a gargalhada que deu que desequilibrou a travessa cujo conteúdo, por isso, escorreu, facto, para a cabeça do “patrão” disciplinador…

23.10.11

Jacintinho e pai Jacinto







Tratava-se, certamente, de uma ocasião solene, tendo em conta os atavios muito cuidados dos gandulos da primeira fila.
O peso percentual da “tribo” é esmagador: toda a fila da frente (da esquerda para a direita, este que vos escreve, o primo Lelo, o Turita de solenes suspensórios bávaros, os primos Augusto Zé e Beto); entre as meninas, à esquerda, uma jovem ainda não identificada com segurança (já me foram sugeridos os nomes de Celeste ou Sara), a minha prima Fernanda, uma face escondida que deve ser a minha irmã Lena, a minha prima Teresa Ferreira (irmã do Augusto Zé), atrás dela, altíssima, a Laurinda, que havia de ser também minha prima depois de casar com o Abraãozinho, e a prima Belita com um bebé (não identificado) ao colo.
Também à esquerda, ostentando uma conspícua boina basca, o Jacintinho.
O Jacintinho era da nossa criação e, quando muito, um nadinha mais velho do que o Beto. Como se constata na foto, era menino de impressionante envergadura, qualidade que acompanhava uma invulgar falta de jeito para as actividades que exigiam destreza ou alguma violência. Tímido e sensível, o Jacintinho dificilmente se libertava da redoma em que a Mãe o mantinha. Hoje, diríamos que era uma criança emotiva e de lágrima fácil; na altura, preferíamos o epíteto de “chorão”.
Herdara a compleição hercúlea do Pai Jacinto.
Deste último dependia, em grande medida, a iluminação eléctrica de Montepuez, uma vez que, sendo electricista, tinha a seu cargo o funcionamento e manutenção do gerador.
O senhor Jacinto, tinha, ao contrário do seu rebento, uma voz tonitruante correspondente ao tamanho do corpanzil e era muito, mesmo muito desconfiado.
Sendo a “sua” iluminação pública ainda muito incipiente e escassa, havia energia suficiente para o interior das casas mas o exterior mantinha-se na escuridão (que, em África, pode ser profunda).
Rezam as crónicas que, sentado à mesa do jantar, o senhor Jacinto soltava, de quando em quando e a intervalos irregulares, um grito, audível a grande distância no silêncio (que, em África, pode ser profundo como a escuridão...) : “ENTRE!”, era o insólito convite que o grito transmitia.
Continuam a rezar as crónicas que, inicialmente, este hábito criara na Mãe e no inocente Jacintinho alguma perplexidade e até medo); à terceira ou quarta vez, a D. Isolina inquiriu das razões daquele procedimento: “Ó homem, não está ninguém lá fora; se estivesse, batia à porta ou chamava…”.
O senhor Jacinto terá respondido com um tom explicativo: “Cala-te, mulher! Podem estar lá fora a escutar à porta ou a espreitar pela janela. Assim se gritar, pensam que nós os ouvimos, ficam envergonhados e vão-se embora!”.