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23.3.12

Memória Colonial IX

 O Dr. Almeida Santos foi personagem central na vida política moçambicana no período que antecedeu o fim do regime salazarista e, depois, nos acontecimentos que se lhe seguiram.
A mais do que um título pode considerar-se que foi, também, actor e espectador privilegiado dos dramas "do colonialismo e da descolonização", como subtitulou o primeiro volume das suas "Quase Memórias".
No Moçambique colonial, integrando o grupo dos "Democratas de Moçambique", núcleo da oposição democrática que aparecia, às claras, sempre que se proporcionavam ocasiões, participando em períodos eleitorais, escrevendo ou defendendo presos políticos e nacionalistas moçambicanos; em Portugal, após a Revolução dos Cravos, como dirigente do PS, ministro em vários governos, candidato a PM, Presidente da Assembleia da República e, sobretudo, para aquilo que aqui nos interessa, figura chave no processo de descolonização enquanto Ministro da Coordenação Interterritorial dos primeiros governos provisórios, e negociador e signatário dos tratados de Independência.
O autor descreve o livro como sendo uma "digressão pelo estertor do colonialismo e pelo dossier da descolonização" e divide a sua narrativa por dois volumes com o título geral de Quase Memórias": o primeiro volume chama-se, como acima se disse, "Do Colo,nialismo e da Descolonização"; o segundo, "Da descolonização de cada Território em Particular".
Almeida Santos já tinha, em 1975, comparado a descolonização a um iceberg de que "a parte mais determinante (...) não sobrenadou a linha de água da opinião pública".
Este livro vem, segundo ele, tentar obviar a esse desconhecimento.
 Claro que Almeida Santos "escreve para a História" que considera "muitas vezes deturpada, e em consequência mal julgada". Também não assume uma objectividade absoluta, que reputa (e bem) impossível de atingir, salientando várias vezes que fala da sua verdade.
É seguro, também, que o livro desagradará a gregos e troianos; a uns porque o autor personifica, juntamente com Mário Soares e os "Militares de Abril" a figura sinistra do "traidor e vende pátrias", responsável pelo drama cósmico dos retornados e pelo seu cortejo de lágrimas, rancores e revanchismo; a outros porque o autor não deixou de ser sensível, talvez por razões geracionais, à retórica absolutória que, ainda hoje, impregna largas camadas do Povo português e que debita uma suposta "diferença" do colonialismo português, que seria menos bárbaro, mais humano e "lusotropical".
Ainda assim, o livro é interessante e, mesmo, muito importante para quem queira conhecer ao pormenor uma das fases mais complexas da História recente de Portugal.



QUASE MEMÓRIAS (2 vol.)
António de Almeida Santos
Ed. Casa das Letras/Editorial Notícias

9.2.12

Memória Colonial VIII

Integro este post na série "Memória Colonial" sacrificando o rigor à facilidade.
Na verdade, neste caso não se trata de abordar, especificamente, a época colonial. Segundo o próprio autor, o livro constitui "uma caminhada pela História de Moçambique, da sua gente, da sua economia e da sua cultura", com um "objectivo (...) puramente informativo".
Contudo, a série "Memória Colonial" pretende assinalar - e, por extensão, chamar a atenção dos meus poucos leitores - para trabalhos relacionados com o período colonial, coisa que este livro é, embora só parcialmente.

Por outro lado, cabe sublinhar a forte ligação do autor a Montepuez, onde viveu por muito tempo e a que permanece emocionalmente ligado.

Aurélio Rocha, o meu primo Lelo, cujas fotos de infância já publiquei (por exemplo aqui) e que, muito gentilmente, me autorizou a utilizar textos seus para a série "Apontamentos sobre as origens históricas de Montepuez" - que  pode consultar clicando, na coluna "Marcadores", no lado direito do blog, em "História".
Clicar para aumentar
É, como já tive ocasião de mencionar, um reputado Historiador, docente da Universidade Eduardo Mondlane.
Publico, também, cópia da contracapa do livro, com uma Nota Biográfica.
"Moçambique História e Cultura" é uma leitura altamente interessante, com uma abordagem que permite uma visão muito completamente da História de Moçambique por qualquer leigo.

Aurélio Rocha
Moçambique História e Cultura (2006)
Ed. Texto Editores

30.1.12

MEMÓRIA COLONIAL VII


Carlos Vaz Ferraz é o pseudónimo literário de Carlos Matos Gomes, Coronel do Exército. 
Carlos Matos Gomes. que foi um dos "Capitães de Abril", tem-se   dedicado à literatura e à ficção.
Publicou já numerosas obras que têm a guerra colonial como tema; um dos seus livros foi adaptado para cinema e o filme, realizado por António Pedro de Vasconcelos com o título Os Imortais, obteve bastante êxito.
Escreveu o argumento do filme Portugal S.A., de Ruy Guerra,  realizador brasileiro nascido em Moçambique.
Colaborou com Maria de Medeiros no filme Capitães de Abril e é autor do guião da série de televisão Regresso a Suzalinda, baseada no romance Fala-me de África.
O título do livro aqui apresentado, Nó Cego, remete para a designação de código "Nó Górdio", a maior operação militar realizada em Moçambique durante a Guerra Colonial que decorreu em 1970, sob comando do General Kaúlza de Arriaga e envolveu 35 mil militares. O objectivo era destruir as bases da FRELIMO e neutralizar as pistas e rotas de infiltração de homens e material provenientes da Tanzânia.
O autor comandou uma Companhia de Comandos que participou naquela operação.
Nó Cego é um dos poucos grandes livros de ficção sobre a guerra colonial, um vasto fresco sobre os soldados e oficiais "transplantados" das suas terras de origem para uma África violenta, em convulsões febris na busca da sua liberdade e dignidade, sobre as angústias, os medos , os crimes que são, sempre, o pano de fundo das guerras.
Muito bem escrito, com uma linguagem depurada, recusando o sentimentalismo e o panfleto, Nó Cego é, hoje, objectos de estudos académicos e poderá vir a ficar na História da literatura portuguesa, como diz no Prefácio à ultima edição da autoria de Rui de Azevedo Teixeira, como "o nosso Por Quem Os Sinos Dobram".
A título de curiosidade, transcrevo uma passagem em que Carlo Vaz Ferraz se refere a Montepuez:

"Vinda de Angola, desembarcada do navio Império em Porto Amélia, antes de ser enviada para Mueda com a urgência dum carro de bombeiros, a companhia esteve uns curtos dias em Montepuez, o quartel da base dos Comandos, para receber o armamento e o equipamento dos lotes de intervenção.
Montepuez seria um género de residência da família no campo, o local onde deixaram arrumados nos armários verdes das casernas que lhes atribuíram as roupas civis que só seriam utilizadas nas próximas férias e os pertences inúteis que lhes recordavam o passado. (...) Não chegaram a conhecer a pequena vila no interior, situada numa área de novas plantações de algodão (...)".

Carlos Vaz Ferraz
Nó Cego
Edição Casa das Letras
(Oficina do Livro)












3.1.12

MEMÓRIA COLONIAL VI



O actual Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, nasceu em Vila Nova de Foz Côa e nunca, ao que parece, viveu permanentemente em Lourenço Marques ou em qualquer outro ponto de Moçambique. 
Segundo as suas próprias palavras, antes de escrever o livro de que aqui falo, só visitou Moçambique cinco vezes, quatro delas para prepara a obra.
E, no entanto, quem ler o seu romance ( policial? ) "Lourenço Marques" (Edições ASA, 2002) e não conhecer esse facto ou a biografia do autor, pensará que se trata de alguém com fortíssimas ligações à cidade que dá o nome ao livro e, certamente, de alguém que aí mergulhou fundo na vida, durante os anos sessenta e setenta.
Se esse leitor desprevenido tiver conhecido a Lourenço Marques dessa época, encontrará tantas referências familiares, tantos nomes de pessoas e locais, tantas expressões que não duvidará estar em presença de alguém que talvez tenha conhecido e que se abriga, agora, atrás de um pseudónimo.
Como já disse, não é o caso.
O livro parte de um enredo policial, género muito utilizado pelo autor, mas é na verdade, um exercício de "memória reconstruída" (de que já tenho falado neste blog) pelo personagem principal, Miguel, que volta, depois de vinte anos, a Moçambique, numa demanda quase mística de uma mulher que conhecera na "antiga" Lourenço Marques e que procura por todo o país (Maputo, Beira, Pemba, Ilha de Moçambique, Nampula, Lichinga...) e que é na verdade, a peregrinação aos locais da memória.
É claro, "o poeta é um fingidor" e esta nostalgia que Miguel sente não é a do autor, como não são do autor as recordações plasmadas no texto; esta nostalgia, estas recordações, são a busca de uma "cidade perdida" e um pouco mítica, "a Cidade das Acácias" envolta no "Azul do Índico" ( título da edição brasileira), uma cidade localizada num país que só sobrevive na memória dos que a (e lá) viveram.
Para escrever este livro, Francisco José Viegas deve ter feito intensíssimas e exaustivas pesquisas, consultado muitos documentos, ouvido muitas memórias.
Percorrem o livro pormenores como os nomes da equipa completa de basquete do Sporting de Lourenço Marques, de locutoras do Rádio Clube de Moçambique, do famigerado "Zeca Russo",  locais como o Piri-Piri, a Cristal, o Hotel Cardoso, expressões idiomáticas que são habituais, como "maningue" ou "kanimambo" mas também outras como "canganhiça", "xicuembo" ou "uma quinhenta", que já o são menos
Leiam-se, por exemplo, esta passagens (de que consta o nome de Cansado Gonçalves que eu já tinha citado AQUI;

(...) tenho saudades de Quelimane, de Mocuba, de Gurué, que nomes eu te atirava à cara, o nome dos miúdos que andaram no Liceu Pêro de Anaia, na Beira, as histórias das raparigas da Bartolomeu Dias, em frente às Torres Vermelhas (...) um abraço maningue apertado, gente chunguila, sem canganhiça, que nomes eu te atirava à cara, Venda. Tchova, tchova! Tchova a memória. Os nomes do professor Pinto dos Santos, Heliodoro Frescata, Cansado Gonçalves, Domitila Apolinário, Elisa Gouveia, Prata Dias, Zeca Afonso, o advogado Barradas a perseguir os fiscais da câmara e da polícia por causa das multas de estacionamento que ele julgava ilegais.

E, contudo, nesta memória reconstruída de Lourenço Marques não perpassa qualquer simpatia pelos "bons velhos tempos" ou branqueamento da sociedade colonial, ainda que se diga, a certa altura que a cidade agora é suja, "com merda onde deviam estar flores", consequência nefasta (entre outras) da guerra civil e da catastrófica experiência "socialista".
Francisco José Viegas escreve bem, escorreitamente. A história policial que serve de enredo ao romance é interessante e prende a atenção do leitor.
Mas...vou arriscar, talvez sem razão: só sentirá plenamente o prazer da leitura deste livro quem tiver vivido, ainda que por interposta pessoa, em Moçambique ou em Lourenço Marques ou mesmo em Maputo

Francisco José Viegas
"Lourenço Marques"
Edições ASA (2002)














19.12.11

MEMÓRIA COLONIAL V



René Pelissier é um historiador francês que se especializou na história colonial portuguesa e é autor de uma vasta bibliografia em que Moçambique ocupa um lugar de relevo.
Num artigo, intitulado Impérios defuntos, herdeiros batalhadores e publicado em 2004 na Revista Análise Social, Pelissier refere um autor escocês, Fred Reid, e a sua obra In Search of Willie Patterson. A Scottish Soldier in the Age of Imperialism, de 2002.
Escreve René Pelissier:

Mais inesperado ainda, mas sempre sobre Moçambique, vamos citar um texto escocês  entre 1918 e 2000. Trata da biografia de um «obscuro»,redigida por um historiador profissional que reconstituiu a vida do avô, proletário vitoriano, grande amante de mulheres, soldado do império britânico, carteiro, que se ofereceu como voluntário, para acabar como telegrafista militar a norte de Moçambique, correndo atrás dos alemães, do célebre von Lettow-Vorbeck. O mais extraordinário neste trabalho de reabilitação da «ovelha negra» da família é que o autor é cego e, empurrado pela sua consciência profissional, dirige-se pessoalmente ao local (Montepuez e arredores) para
«ver» (pelo menos sentir) como é que este avô desconhecido obteve a military medal pela sua bravura, a 12 de Abril de 1918, numa batalha (Medo) de que ninguém se recorda, nem na Grã-Bretanha, nem em Portugal, nem em Moçambique.
O que Fred Reid diz  das suas tentativas (pp. 97-120) para identificar Medo em Montepuez é apaixonante, mas este Sherlock Holmes com uma bengala branca teria evitado muitos incómodos ao pé das termiteiras se os seus ajudantes e assistentes visuais tivessem contactado especialistas britânicos da bibliografia moçambicana que o teriam orientado, possivelmente, para "A Handbook of Portuguese Nyasaland, reimp. Greenwood Publishing, Nova Iorque,  1969 (p. 204)". Mas, enfim, graças a ele, temos mais uma descrição de Montepuez e do seu «concelho» (o Medo) depois da guerra civil.

Vou procurar o livro de Fred Reid.
Sobre von Lettow-Burbeck, poderá quem o desejar, clicar, na coluna da direita do blog, na secção intitulada MARCADORES, em “Grande Guerra”; quanto ao Medo (ou Meto),tem sido várias vezes referido.







25.11.11

Memória Colonial IV


O meu amigo João Paulo Guerra é um grande jornalista que tem, também, publicado livro sobre temáticas várias e se aventurou já pelos domínios da ficção.
Não é o caso deste “O Regresso das Caravelas”, um muito interessante relato sobre a descolonização que abrange ainda os tempos anteriores e imediatamente posteriores às Independências das ex-colónias.
João Paulo Guerra dá a palavra a alguns dos protagonistas desses tempos agitados e traumáticos, através de factos inseridos nos processos que levaram aqueles países à Independência e na própria evolução da política portuguesa, desde a recusa salazarista de negociação ou, sequer, de contactos com os movimentos independentistas até às tumultuosas relações entre Spínola, Marcelo e a ala extremista do regime e, claro, o post-25de Abril.
O João Paulo não esconde as suas orientações políticas anti-coloniais que vêm de antes de 1974 mas, como excelente jornalista que é, não deixa que elas contaminem a descrição dos factos históricos nem os retratos dos que se pronunciam sobre eles.
“O Regresso das Caravelas” faz parte de bibliografia sobre as memórias do nosso passado (cada vez menos) recente e é uma leitura proveitosa para quem sobre elas se debruça.

Descolonização Portuguesa – O Regresso das Caravelas  
João Paulo Guerra
Ed. Oficina do Livro

19.10.11

Memória Colonial (III)


Há assuntos que se não podem, honestamente, esconder quando se fala de portugueses que conheceram a África colonial.
 Entre eles, o racismo, a guerra e os retornados, aqueles mesmo que o grande mercado da nostalgia de que já aqui falei, tende a minimizar, relativizar, quando não, pura e simplesmente, apagar e negar.
A ficção portuguesa tem tratado o segundo, a guerra, com alguma frequência, embora com qualidade desigual, sendo que alguns grandes autores já se debruçaram sobre ele, como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo, entre outros.
O racismo, que perpassa, imanente, por toda a literatura de alguma qualidade, sublinhado, edulcorado ou minimizado, não tem sido, que eu conheça, tema central da ficção portuguesa post-colonial.
Restam os retornados. Esta palavra, que designava hipócrita e mentirosamente (uma grande parte dessa onda humana não “retornava” a sítio nenhum, pois nunca aqui vivera), adquiriu, nos anos de brasa de 70, uma tonalidade quase insultuosa. Centenas de milhar de pessoas foram discriminadas, apontadas à execração pública por turbas neo-revolucionárias de lumpen e vira-casacas, em caricaturas cruéis e violentas de ferozes capatazes de chicote em punho, negreiros ávidos e desumanos, votadas ao vexame da “caridade” familiar ou da “ajuda”, esta palavra, pois, sintetiza um drama colectivo de proporções bíblicas. Eles tinham, como diz Lobo Antunes em “Os Cus de Judas”, vivido longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui.
Tal como no caso do racismo, os retornados surgem, aqui e ali, em apontamentos ou retratos em várias obras contemporâneas.
Em 1981, Guilherme de Melo publicou “A Sombra dos Dias”, os retornados vistos da perspectiva de Moçambique e inaugurou, por assim dizer, o sub-género.
Mas agora, passados 30 e tal anos, com a chegada das crianças que abandonaram as ex-colónias à frente do tsunami da Libertação, processadas as memórias, rompeu-se o dique e os retornados aí estão, caso de estudo, assunto de discussão e, para o que aqui interessa, objecto de ficção.
Mais uma vez (et pour cause) com qualidade, propósito e perspectivas diferentes e, por vezes, opostas mas aí está.
Acaba de ser publicado e ainda não o li, saiu há poucos dias.
Mas o que sei já sobre este livro, vai fazer-me correr, ainda hoje, para uma livraria.
Trata-se de “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso.
Dele disse Pedro Mexia, no “Expresso”: Dulce Maria Cardoso encontra o registo certo em todas as cenas, emocionado e seco, triste e orgulhoso, cheio de culpa e incerteza, de palavras africanas que eram o português angolano, de recordações epocais, como fotonovelas ou marcas de uísque. É essa história visivelmente vivida, sem demagogia nem rasuras, que faz de "O Retorno" um romance há muito aguardado.
Do sentimento de rejeição que ela própria sofreu ao chegar a Portugal, diz a autora: Só o consegui perdoar quando o tornei útil. Ou seja, quando percebi que normalmente as vidas são curtas e tudo nos atrasa. Não é à toa que o protagonista do romance é um adolescente. É porque é na adolescência que nos podemos redefinir. E nas convulsões, nos tempos conturbados estamos outra vez numa espécie de adolescência do país. Os retornados mudaram as coisas. As retornadas com as minissaias e o fumo e isso tudo. Isto aqui era mesmo assustador. Não é brincadeira. Lembro-me de pensar que só havia quatro cores: cinzento, bege, castanho e preto. Nó, os de lá, tínhamos um arco-íris. Parecíamos uns palhaços.

E na mesma entrevista (Revista “LER”-Out.2011), sobre uma reflexão que o romance também faz: (…) como é que lidamos com o colonialismo e com a sua memória. Para nós, como povo, isso é determinante. Crescemos na ideia de que fomos um império. Ainda sou dessa geração. E de repente somo só isto. Como aquelas mulheres que foram muito bonitas e agora é só a descer. Isto deprime. Deprime tanto a mulher bonita como deprime um povo.   

O Retorno
Dulce Maria Cardoso
Ed. Tinta-da-China
 1 ª edição: Outubro de 2011
n.º de páginas: 272

14.10.11

Memória Colonial (II)


Ao contrário do filme de Diana Andringa, é difícil classificar o livro de Isabela Figueiredo como “delicado”.
“Caderno de Memórias Coloniais” é um livro autobiográfico, um ajuste de contas com memórias de infância, executado com dureza (por vezes com crueza) e, aparentemente, com uma sinceridade brutal.
A autora saiu da Matola aos 11 anos, deixando aí um pai que adora mas sobre o qual não deixa de lançar o seu olhar desapiedado, reconhecendo o racista primário que assimila à sociedade colonial.

“ Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril. Em Lourenço Marques, sentávamo-nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restaurante, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com soda e gelo, e a debicar camarões, tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de segunda, engolindo uma imperial e enjoando tremoços. Os criados eram pretos e nós deixávamos-lhes gorjeta se tivessem mostrado os dentes, sido rápidos no serviço e chamado patrão. Digo nós, porque eu estava lá. Nenhum branco gostava de ser servido por outro branco, até porque ambos antecipavam maior gorjeta. O meu pai, a quem coube a missão de electrificar a Lourenço Marques dos anos 60, nunca quis empregados brancos, porque teria de lhes pagar os olhos da cara.”

A raiva prolonga-se, depois, pela condição de “retornada”:

 «A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, que tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós e o que tínhamos acabado de viver, cobardes filhos de uma puta brava.»

A autora estilhaça o mito do não-racismo da colonização portuguesa, desmascara ao lugar comum piedoso que serve para esconjurar passados obscuros e atirar um manto sobre o lado mais obscuro  de muitos percursos de vida.

"Caderno de Memórias Coloniais"
de Isabela Figueiredo
Ed.Angelus Novus

11.10.11

Memoria colonial ( I )



Diana Andringa é conhecida como uma grande jornalista e é também, coisa que menos gente sabe, uma grande cineasta.



Nascida em 1947 em Angola, no Dundo, sede da Diamang, daí saiu com onze anos, para a “Metrópole”, como então se dizia.



Em 2009, cinquenta anos depois, Diana voltou, pela primeira vez, à sua terra natal, acompanhada pela filha. E filmou esse regresso em “Dundo, Memória Colonial”.



Com admirável delicadeza e com uma ambivalência que ela própria reconhece,

a antiga activista anti-colonial, presa pela PIDE pelo seu envolvimento com os Movimentos de Libertação, "vai confrontar a memória" e, ao mesmo tempo, passar o testemunho aà sua filha Sofia, inocente, esta, do "pecado original" da felicidade infantil em terras de violência:
"Era bom ser criança no Dundo, quando se era branca e filha de engenheiro. Havia espaço para brincar, ruas para andar de bicicleta, animais, liberdade. E criados para nos acompanhar e satisfazer os nossos caprichos. Era bom ser criança e não notar como era artificial e injusto o mundo que nos cercava".


Como diz Jorge Martins aqui : "regressou ao hospital onde nasceu e à casa onde viveu parte da sua juventude plena de boas recordações e espantou os seus interlocutores com a sua brancura africana. E, confesso, tenho uma enorme inveja de ver o brilhozinho nos olhos de todos os portugueses que viveram em África (...) quando recordam esses anos."


É verdadeiro, esse brilhozinho. Só ele pode explicar que Diana Andringa, saída ainda criança da sua terra natal,  depois de toda uma vida  (e que vida!) feita em Portugal, possa afirmar "agora volto porque o Dundo é a minha única Pátria, a mais antiga das minhas memórias". 


O filme existe em DVD.