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19.12.11

MEMÓRIA COLONIAL V



René Pelissier é um historiador francês que se especializou na história colonial portuguesa e é autor de uma vasta bibliografia em que Moçambique ocupa um lugar de relevo.
Num artigo, intitulado Impérios defuntos, herdeiros batalhadores e publicado em 2004 na Revista Análise Social, Pelissier refere um autor escocês, Fred Reid, e a sua obra In Search of Willie Patterson. A Scottish Soldier in the Age of Imperialism, de 2002.
Escreve René Pelissier:

Mais inesperado ainda, mas sempre sobre Moçambique, vamos citar um texto escocês  entre 1918 e 2000. Trata da biografia de um «obscuro»,redigida por um historiador profissional que reconstituiu a vida do avô, proletário vitoriano, grande amante de mulheres, soldado do império britânico, carteiro, que se ofereceu como voluntário, para acabar como telegrafista militar a norte de Moçambique, correndo atrás dos alemães, do célebre von Lettow-Vorbeck. O mais extraordinário neste trabalho de reabilitação da «ovelha negra» da família é que o autor é cego e, empurrado pela sua consciência profissional, dirige-se pessoalmente ao local (Montepuez e arredores) para
«ver» (pelo menos sentir) como é que este avô desconhecido obteve a military medal pela sua bravura, a 12 de Abril de 1918, numa batalha (Medo) de que ninguém se recorda, nem na Grã-Bretanha, nem em Portugal, nem em Moçambique.
O que Fred Reid diz  das suas tentativas (pp. 97-120) para identificar Medo em Montepuez é apaixonante, mas este Sherlock Holmes com uma bengala branca teria evitado muitos incómodos ao pé das termiteiras se os seus ajudantes e assistentes visuais tivessem contactado especialistas britânicos da bibliografia moçambicana que o teriam orientado, possivelmente, para "A Handbook of Portuguese Nyasaland, reimp. Greenwood Publishing, Nova Iorque,  1969 (p. 204)". Mas, enfim, graças a ele, temos mais uma descrição de Montepuez e do seu «concelho» (o Medo) depois da guerra civil.

Vou procurar o livro de Fred Reid.
Sobre von Lettow-Burbeck, poderá quem o desejar, clicar, na coluna da direita do blog, na secção intitulada MARCADORES, em “Grande Guerra”; quanto ao Medo (ou Meto),tem sido várias vezes referido.







9.11.11

Montepuez na Grande Guerra - V

Metralhadora alemã


Transcrevo alguamas passagens da obra do General Lettow-Vorbeck, 
As Minhas Memórias da África Oriental
, que foi traduzida, em 1923, por Abílio Pais de Ramos:


“O destacamento de Wahle, que nos havia seguido de Chirumba para Mtende, foi isolado por diversas companhias inimigas que apareceram inesperadamente numa posição à sua retaguarda, e que interromperam os serviços de ligação e transportes. 0 General Wahle desembaraçou-se engenhosamente desta situação desconfortável, e conseguiu aproximar-se mais do Quartel General, em Nanungu.
Encontrámos aqui víveres em abundância e recomeçámos o estabelecimento de postos de racionamento e depósitos de géneros na região entre Nanungu e Namuna, e ainda mais para o sul. Havia muito boa caça, e os indígenas apresentavam-se voluntariamente com os produtos das hortas e com mel, para os trocarem por fato e por carne. Apareceram muito a tempo uns frutos muito doces que amadureciam aos milhões em Nanungu. Eu preferia come-los em conserva. Ainda encontrámos outras especialidades, como por exemplo, tubaras O cantar dos galos proclamava bem alto e a distancia a existência de ovos e galináceos pelo campo.”

Nota: Nanungu é, certamente, o NUNGO, a localidae relativamente próxima de Mocímbua; e Namuna, não tenho dúvidas, correponde a Namuno, há trinta anos um Posto Administrativo pertencente a Montepuez e hoje o Distrito do mesmo nome, onde o meu Tio Júlio Ferreira tinha uma machamba.

“Em 5 de Dezembro, o Capitão Koehl, com 5 companhias, uma peça e uma coluna de munições, partiu de Nangwale em direcção ao distrito de Mwalia-Médo. Quanto a mim, continuei a marcha pelo Ludjenda.”

Nota: Já aqui falei do Régulo Mualia e da sua região, na qual estava situada a machamba do meu Pai, o Natupile. Tenho, agora, a confirmação de que as tropas alemãs tinham estado na zona do Natupile (e, talvez, aí tivessem decorrido combates ou escaramuças), o que, segundo julgo (mas não juro…), penso ter ouvido referir ao meu Pai.

“O início da estação das chuvas não coincidiu bem com a precisão dos indígenas. Houve algumas bátegas de água violentas, mas esta escoava-se rapidamente para o rio Msalu, a principal linha de água da região, que em pouco tempo se encheu por forma a constituir um obstáculo forte.
(…)
Encontrámos aqui víveres em abundância e recomeçámos o estabelecimento de postos de racionamento e depósitos de géneros na região entre Nanungu e Namuna, e ainda mais para o sul. Havia muito boa caça, e os indígenas apresentavam-se voluntariamente com os produtos das hortas e com mel, para os trocarem por fato e por carne. Apareceram muito a tempo uns frutos muito doces que amadureciam aos milhões em Nanungu. Eu preferia come-los em conserva. Ainda encontrámos outras especialidades, como por exemplo, tubaras O cantar dos galos proclamava bem alto e a distancia a existência de ovos e galináceos pelo campo.”

Nota: De novo, referências ao Nungo e a Namuno. E, agora, aparece o Rio Msalu, o “nosso” Messalo que corre junto ao Nairoto. Aí houer, certamente, combates. E lembro-me bem (assim como o meu irmão Turita), de uma enorme caverna não natural escavada na parede de um desses colosssos granítico que emergem do solo na região; e recordo-me que “sabiamos” que tinha sido “um tiro de canhão” o que causara o fenómeno.

3.11.11

Montepuez na Grande Guerra - IV

Paul Emil von Lettow-Vorbeck


Paul Emil von Lettow-Vorbeck (1870-1964) foi um dos mais experientes e destacados Generais alemães.
Nascido no seio de uma família de militares, combateu na China durante a Revolta dos “boxers”, na colónia alemã do sudoeste Africano, a actual Namíbia, e seguidamente, com o posto de Coronel, foi enviado para a colónia da África Oriental alemã, no território da actual Tanzânia, durante o período que nos interessa, e aí comandou as tropas coloniais.
Durante os quatro anos que durou a guerra, com uma força que nunca ultrapassou os 14 mil homens, dos quais 11 mil askari(*) e 3 mil alemães, opôs-se, sempre vitoriosamente, às tropas britânicas, belgas e portuguesas que, no seu conjunto chegaram a ultrapassar os 200 mil soldados.
 Nas suas incursões por colónias britânicas e portuguesas conduziu uma guerra que era uma curiosa misturadetácticas de guerrilha que fazem dele um émulo de Giap e Mao Zedong e práticas cavalheirescas que, como lídimo junker, ainda presava; por exemplo, tinha por hábito oferecer a liberdade aos oficiais inimigos aprisionados contra a promessa de não voltarem a combater.
Conseguiu transmitir aos seus homens, incluindo aos “ferozes” askari, essa mistura de férrea disciplina e de princípios “morais” e os seus subordinados seguiam-lhe o exemplo.
Capitão Francisco Curado
Assim, um dos poucos ofiviais portugueses que ofereceu alguma resistência digna desse nome às tropas alemãs, o Capitão Francisco Curado que as enfrentou heroicamente na batalha da Serra de Mecula, situada na actual Província do Niassa, viu o comandante das forças inimigas, o General Whale (comandante da coluna que ocupou, durante meses, a região de Montepuez), além de prestar honras militares ao Alferes Viriato de Lacerda (**), morto nesse combate, e de lhe oferecer a liberdade em troca do compromisso acima referido que ele recusou, libertá-lo à mesma e oferecer-lhe uma espada como prova de reconhecimento do seu comportamento heróico.
As tropas de von Lettow transportavam consigo os seus meios de subsistência, incluindo uma pequena manada de vacas, tinham instruções para não hostilizar as populações, o saque e a pilhagem fora das operações militares eram punidos com fuzilamento.
Terminada a guerra, Paul Emil von Lettow-Vorbeck regressou à Alemanha onde, apesar da derrota, teve direito a um desfile triunfal.
Por tradição familiar e convicção de classe, von Lettow era um anti-comunista ferrenho e participou na repressão aos Spartakistas comunistas.
No entanto, nunca pactuou com o nazismo ou com Hitler e, enquanto deputado ao Reichtag (1928-1930) participou de várias tentativas (frustradas) de criar uma coligação anti-nazi.


(*)Askari - palavra swahili que significa “soldado” e serviu para designar as tropas nativas que combateram na África Oriental. Corresponde aos cipaios, palavra que, por sua vez, é proveniente do híndi  shipahi.


(**)O Alferes Viriato de Lacerda, promovido ao posto de  Tenente a título póstumo, foi um dos "Cadetes da Rotunda" qe lutou ao lado de Machado dos Santos em 5 de Outubro de 1910.






28.10.11

Montepuez na Grande Guerra - III


O General von Lettow, que comandou as tropas alemãs vindas do Tanganika, então integrado na Deutsch - Ostafrika (África Oriental Alemã), que invadiram Moçambique e cujos dados biográficos serão objecto de um post específico, foi o mais notável militar alemão da sua geração, tendo combatido no Extremo Oriente, em África e na Europa.



Paul Emil von Lettow-Vorbeck
 Um junker prussiano, imbuído ainda do "espírito dos cavaleiros teutónicos" que terminou, exactamente, com a Guerra de 14-18 e que já esteve completamente ausente na II Guerra Mundial, foi, além disso, um guerrilheiro cujas acções e iniciativas não ficam atrás das de Giap ou "Che" Guevara.
Encontrei no Youtube este interessante vídeo onde von Lettow-Vorbeck aparece várias vezes e que, segundo julgo, mostra, numa das gravuras da época, a travessia do Rovuma.

26.10.11

Montepuez na Grande Guerra - II


Portugal tinha abandonado a neutralidade logo em 1914 mas a Alemanha só declarou guerra em 1916.
Logo nesse ano, as tropas portuguesas chegam a invadir o território da África Oriental Alemã, atravessando o Rovuma, mas mantêm-se aí apenas por cerca de três meses, entre Setembro e Novembro.
Askari das tropas alemãs na Guerra 14-18
Em resposta, uma força alemã, conhecida como “Destacamento Stuemer”, invadiu Moçambique entre Abril e Setembro de 1917.
A segunda invasão, entre Novembro de 17 e Abril de18, o General von Lettow, comandante das tropas alemãs, atravessou novamente o Rovume e entrou em Moçambique com uma força da Schutztruppe (Força Auxiliar essencialmente composta de locais designados Askari, o correspondente aos cipaios das colónias portuguesas).
Uma coluna, a célebre “Colluna Wahle, comandada pelo General com o mesmo nome, passou o Lugenda e estabeleceram  uma ocupação durável de toda a região compreendida entre Muembe, Chirumba, Luambala, Namuno, Mualia, Montepuez e o rio Lúrio, em todo o período entre Novembro de 1917 e Abril de 1918.
Mualia, de que já falei AQUI, era a sede do Cocelho do Medo (Meto) e correspondia, certamente, ao Natupile, a "machamba" do meu Pai.
A resistência portuguesa foi valorosa, por vezes heróica, mas incapaz de resistir ao poderio alemão dados o seu deficiente treinamento, os poucos recursos de armamento, a inferioridade táctico-militar mas também (e talvez sobretudo), como nota René Pelissier 
, pela hostilidade das populações e dos potentados locais, o que embacia um dos mais acarinhados e persistentes mitos ainda presentes na sociedade portuguesa, o da "preferência" dos colonizados pela "paternal" dominação portuguesa, em contraposição à "cruel" acção colonizadora das outras potências.
Esta circunstância, a forma amigável como as populações da região acolhem os alemães, é também mencionada por Milton Correia (2) que refere "a agradável recepção política africana para os alemães".


(1) R. Pelissier, Hitória de Moçambique: formação e oposição 1854-1918, II volume
(2)Milton Correia, Norte de Moçambique, 1886-1918:soberania,dominaçãoeAdministraçãocolonial


25.10.11

Montepuez na Grande Guerra - I

Fonte: Ilustração Portuguesa

Durante a I Guerra Mundial, as forças alemãs, comandadas pelo futuro General Paul Emil von Lettow-Vorbeck, invadiram o território do Norte de Moçambique a partir da então colónia alemã do Tanganika e chegaram a ocupar Montepuez.
É sobre esse episódio que pretendo elaborara uma série de pequenos apontamentos, sem pretensões historiográficas ou preocupações de rigor científico e recorrendo a fontes muito diversas.
As motivações portuguesas para participar na Guerra, prendiam-se, como é consensual entre os historiadores, com o receio de que se viesse a concretizar, nos futuros Tratados de Paz, a divisão dos seus territórios coloniais entre outras potências, possibilidade que  foi muitas vezes aventada no período que se seguiu à Conferência de Berlim (1884/1885) que organizou a ocupação de África pelas potências coloniais e que resultou num traçado de fronteiras artificiais, sem qualquer respeito pela História ou pelos povos africanos, vindo a ser um dos factores que estão na raiz do espectro de guerras e instabilidade que continuam a assolar aquele continente.
O ambiente político interno em Portugal, que vivera a Revolução Republicana apenas quatro anos antes, o estado de preparação do País e do Exército para um conflito que viria a ser o primeiro em que a tecnologia seria decisiva, a popularidade da beligerância, estão amplamente documentados e foram muito exaustivamente tratados pela historiografia.
Mas a Guerra que se desenrolou em África e a intervenção portuguesa nos combates contra a Alemanha teve características especiais.
Só me referirei a acontecimentos, factos ou personalidades que estejam, de uma forma ou de outra, relacionados com Montepuez ou, vá lá, com o Norte de Moçambique.