15.1.12

Errâncias II


Minha Avó Amélia (Teixeira Dias), nasceu em 1887, em Freixo de Espada à Cinta.
Quando meu Avô morreu, em meados dos anos cinquenta, deixou Moçambique e voltou a Portugal, onde passou a viver em casa da filha mais nova, a Tia Fernanda.
Para mim, como já escrevi antes, tinha uma aura romanesca que nem mesma a sua pequena estatura e o envelhecimento prejudicaram.
Devo-lhe, sei-o agora, o gosto pelos livros e pela literatura, amores para os quais despertei muito jovem.
Sobreviveu por muitos anos ao seu marido e morreu, já depois de 1974, na casa de minha Tia Fernanda, na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro.
Meu Pai estava em Portugal, onde viera passar algum tempo.
Impressionou-me muito vê-lo chorar.

14.1.12

A piscina, outra vez

Na piscina do Natupile, outra vez.
À direita, o meu Pai; depois, a Belita, o Tio Ramalho (seu Pai), o Beto com a bóia/pneu.
No canto, o Lelo ou o Turita.

Na Praia do Wimbe




O meu Pai, fitando o Índico, na praia do Wimbe.
A atitude não parece espontânea e assemelha-se a uma pose.
Isso estaria de acordo com o temperamento artístico do fotógrafo  que imaginou o enquadramento...

13.1.12

Identificando




Volto a uma fotografia que já utilizei anteriormente para identificar algumas das pessoas que nela aparecem.
À esquerda, o meu Avô paterno António Augusto Dias e, a seu lado, o Sulemane, o homem que "tomou conta de mim" durante uma boa parte da minha infância, meu guardião e protector, comigo ao colo.
Na fila da frente os meus primos Júlio Ramalho e a sua irmã Belita e Joaquim Russo Ferreira com a irmã Teresa.
À direita, também ao colo , um bebé que deduzo ser o meu primo Augusto José Ferreira.

A fotografia datará de meados dos anos 40 e deve ter sido feita no Natupile.



12.1.12

Sobrinhos


À porta da casa de Montepuez, a Carla com o Luís e o Jorge e as respectivas "macaiais".(*)
E não é que estão quase iguais?!

(*) Macaiaia - palavra macua que designa as jovens que tomam conta das crianças. São "marrussi" e não "m'tiana"...



11.1.12

Guerra Marques II

Reencontrei as "crianças" Guerra Marques (ver aqui).
Publico, hoje, mais algumas fotos das meninas. Numa delas, vê-se o meu Pai.

Mostro, também, o verso das restantes, com as dedicatórias manuscritas pela Isabel.
Felicidades!



10.1.12

Errâncias I



De meu Avô paterno guardo o nome, alguns traços fisionómicos e, sobretudo, a minha primeira memória consciente: estou sentado no chão, provavelmente na varanda do Natupile, o Avô está ao pé, sentado num cadeirão com almofadas; aproxima-se um cão; não tenho medo mas o Avô enxota o animal. Fico desiludido porque queria brincar com ele.
Morreu em 1955 ou 56, estava eu no Colégio de Stº. Tirso e essa foi a primeira morte no círculo familiar mais próximo.
O que sei dele, da sua vida, da sua personalidade, das suas histórias é uma mistura de lembranças isoladas e imprecisas, como a que relato acima, de fragmentos de conversas e, provavelmente, de muitas memórias reconstruídas que podem ser, por isso, interpretações subjectivas.
Seja como for, ele tinha para mim uma dimensão aventureira e quase camiliana que se baseava numa história de amores contrariados, raptos e fugas nocturnas. Assim, pertencendo a uma classe desfavorecida, o jovem António Augusto, sapateiro de profissão, tomou-se de amores, que foram correspondidos, pela bela Amélia, que pertencia a famílias com alguns pergaminhos, muito orgulhosa (minha Avó ainda o era) dos seus laços de parentesco com a celebridade regional e nacional, o seu conterrâneo poeta e político Abílio Guerra Junqueiro, o d’“A Velhice do Padre Eterno” e do “Finis Patriae”.
Não sei se o meu Avô o faria mas estou seguro que minha Avó Amélia lia as novelas de Camilo e outros relatos romanescos; poesia, essa lia certamente e lembro-me de a ouvir dizer versos de grandes poetas, que me estimulava a decorar, alguns dos quais nunca mais esqueci, como o “Camões comparado / aos mais escritores / nem entre os maiores / foi sempre igualado”, o soneto de João de Deus.
Terá sido ela, imbuída de espírito folhetinesco, a idealizar o rapto e a fuga?
Creio lembrar-me de referências a uma tentativa de emigração para o Brasil mas não sei em que altura da vida, se antes ou depois do romântico rapto; na verdade, não sei mesmo se a tentativa aconteceu.
Quanto aos amores contrariados e ao rapto, julgo serem recordações mais sólidas mas, ainda assim, talvez coloridas pela minha própria imaginação romanesca…
Mas o que é certo é que o casal teve três filhas Eugenie e Claudine (na forma francesa, nacionalidade que adoptaram por terem ficado a viver em França), mais velhas que o meu Pai, e uma mais nova, Fernanda, nascida naquele país mas que regressou a Portugal, onde foi Professora de francês, ( no Liceu Charles-Lepierre, por exemplo).
Conheci as três – as duas primeiras durante a minha primeira longa estadia em França, a última em Lisboa, onde nos acolhia.
Com ela passou a viver a Avó Amélia quando enviuvou.
Com laivos de folhetim romântico ou não, o casamento de Amélia e António produziu, entre os seus frutos, o pequeno Artur Augusto, nascido às duas horas e trinta minutos do dia Primeiro de Dezembro de 1913.
A família emigrou para França alguns anos depois, quando a paz se instalou na Europa, depois da hecatombe de 14/18. Sei que habitou Lyon.
Em França, o meu Avô António Augusto subiu um degrau na escada da ascensão social: a guerra deixara milhares de estropiados e o jovem (e talentoso, presume-se) sapateiro tornou-se um artesão protésico, executando trabalhos para os mutilados da guerra.
Meu Pai e as irmãs, como acontece com a maioria dos emigrantes portugueses, adaptaram-se com facilidade ao novo país; falavam, claro, o francês melhor do que o português.
Eram os tempos em que a “Escola era risonha e franca”, expressão que meu Pai usava muito, bebida no poema francófilo e franco-patriótico de Alberto Antunes, um dos que a Avó recitava, embalada de nostalgia.
Mas a euforia da Paz que pusera termo à “guerra para acabar com todas as guerras” foi-se esvanecendo; os anos vinte e trinta assistiram ao avolumar das nuvens escuros que prenunciavam um nova e terrível tempestade europeia. Meu tinha sede de aventura e, nessa época, a última fronteira era África.

9.1.12

Mais tribo...

Foto enviada pelo Lelo
A fotografia data de 1956 ou 57.
É tirada na entrada da casa da Tia Irene e do Tio Rocha, tantas vezes lugar de refúgio da ira paterna, despertada por algum disparate. Ali, com a cumplicidade da Tia Irene, esperávamos que a passagem de algum tempo, ou mesmo a intervenção da Tia, atenuasse a punição.
Dos presentes, tenho a certeza da Avó paterna   e do Lelo, dos próprios, da Tia Irene (julgo lembrar-me do vestido - encarnado, às bolas brancas; o Tio Rocha está atrás da Tia e da sua Mãe. Ao lado esquerdo, na zona de sombra o Beto e, do lado esquerdo, arrisco o Aníbal (mas sem certezas).
Alguém me ajuda?

6.1.12

O Tio Rocha






O Tio Aires Rocha tinha um sotaque madeirense que nunca perdeu completamente e que, complementado por um permanente sorriso trocista, era uma marca distintiva muito pecular.
Quase sempre trajava de branco e o Lelo, seu filho mais novo, legendou esta foto definindo a calça e a balalaica brancas como o traje de que mais gostava.

Mas também me lembro de o ver de fato branco, talvez em ocasiões mais formais.
Já falei dele, a propósito do bar do Teixeira & Ramalho e do aperitivo de antes do almoço, o último whisky pedido já depois do quotidiano recado do empregado que vinha visar "patrão, senhora manda dizer que almoço está na mesa".
Era casado com a Tia Irene, a mais nova das cinco irmãs e minha Mãe antecedia-a na escada descendente das idades.
Dos filhos, Adalberto (Beto) e Lelo (Aurélio, já falei várias vezes e mostrei fotografias, como esta aqui.
Foi em casa deles, em Porto Amélia, que nasci, num dia auspicioso...

5.1.12

Problema

Um problema técnico com o scanner impede que se possam utilizar imagens durante algum tempo. De qualquer forma, vou deambular por aí durante os próximos dias e transporto apenas o IPad. Como a prosa não se pretende de enorme qualidade, corro o risco de tornar menos aliciante a leitura do blog... Prometo tentar, muito em breve, voltar a utilizar tecnologia adequada.

4.1.12

Piquenique na serra




Recorro, mais uma vez, às fotografias do meu amigo Celestino Gonçalves, a quem, esperando que continue a visitar este blog envio os desejos de felicidades para 2012, estendidos, claro, à Senhora Dona Lurdes.
A foto refere-se a um piquenique na serra e data de 1958.
Nesse ano, eu estudava no Colégio Vasco da Gama, de Nampula.
Creio não ter participado no passeio, pelo menos não me lembro de tal ter acontecido.
Na fotografia, da esquerda para a direita: o Chefe dos Correios, Manuel dos Santos, futuramente marido da minha prima Belita Ramalho; não identifico a pessoa no primeiro plano, a olhar para trás; o meu Pai; por razões óbvias, também não conheço a pessoa seguinte; reclinado, de óculos escuros, creio ser o Dr. Pires; por fim de camisa escura e chapéu, o meu Tio Joaquim Ramalho, várias vezes mencionado, a última das quais AQUI.
!958 foi o ano das eleições em que foi candidato o General Humberto Delgado. Lembro-me que, para grande inquietação dos reverendos padres do Coléio, se repetia, a cada intervalo, a organização de uma roda à volta de colega calmeirão e bem disposto que se prestava a agradecer com gestos exuberantesas aclamações da malta que gritava o seu nome "Humbertooo! Humbertooo! Humbertoo!..."
O que será feito do Humberto (cujo apelido se me varreu da memória)?

3.1.12

MEMÓRIA COLONIAL VI



O actual Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, nasceu em Vila Nova de Foz Côa e nunca, ao que parece, viveu permanentemente em Lourenço Marques ou em qualquer outro ponto de Moçambique. 
Segundo as suas próprias palavras, antes de escrever o livro de que aqui falo, só visitou Moçambique cinco vezes, quatro delas para prepara a obra.
E, no entanto, quem ler o seu romance ( policial? ) "Lourenço Marques" (Edições ASA, 2002) e não conhecer esse facto ou a biografia do autor, pensará que se trata de alguém com fortíssimas ligações à cidade que dá o nome ao livro e, certamente, de alguém que aí mergulhou fundo na vida, durante os anos sessenta e setenta.
Se esse leitor desprevenido tiver conhecido a Lourenço Marques dessa época, encontrará tantas referências familiares, tantos nomes de pessoas e locais, tantas expressões que não duvidará estar em presença de alguém que talvez tenha conhecido e que se abriga, agora, atrás de um pseudónimo.
Como já disse, não é o caso.
O livro parte de um enredo policial, género muito utilizado pelo autor, mas é na verdade, um exercício de "memória reconstruída" (de que já tenho falado neste blog) pelo personagem principal, Miguel, que volta, depois de vinte anos, a Moçambique, numa demanda quase mística de uma mulher que conhecera na "antiga" Lourenço Marques e que procura por todo o país (Maputo, Beira, Pemba, Ilha de Moçambique, Nampula, Lichinga...) e que é na verdade, a peregrinação aos locais da memória.
É claro, "o poeta é um fingidor" e esta nostalgia que Miguel sente não é a do autor, como não são do autor as recordações plasmadas no texto; esta nostalgia, estas recordações, são a busca de uma "cidade perdida" e um pouco mítica, "a Cidade das Acácias" envolta no "Azul do Índico" ( título da edição brasileira), uma cidade localizada num país que só sobrevive na memória dos que a (e lá) viveram.
Para escrever este livro, Francisco José Viegas deve ter feito intensíssimas e exaustivas pesquisas, consultado muitos documentos, ouvido muitas memórias.
Percorrem o livro pormenores como os nomes da equipa completa de basquete do Sporting de Lourenço Marques, de locutoras do Rádio Clube de Moçambique, do famigerado "Zeca Russo",  locais como o Piri-Piri, a Cristal, o Hotel Cardoso, expressões idiomáticas que são habituais, como "maningue" ou "kanimambo" mas também outras como "canganhiça", "xicuembo" ou "uma quinhenta", que já o são menos
Leiam-se, por exemplo, esta passagens (de que consta o nome de Cansado Gonçalves que eu já tinha citado AQUI;

(...) tenho saudades de Quelimane, de Mocuba, de Gurué, que nomes eu te atirava à cara, o nome dos miúdos que andaram no Liceu Pêro de Anaia, na Beira, as histórias das raparigas da Bartolomeu Dias, em frente às Torres Vermelhas (...) um abraço maningue apertado, gente chunguila, sem canganhiça, que nomes eu te atirava à cara, Venda. Tchova, tchova! Tchova a memória. Os nomes do professor Pinto dos Santos, Heliodoro Frescata, Cansado Gonçalves, Domitila Apolinário, Elisa Gouveia, Prata Dias, Zeca Afonso, o advogado Barradas a perseguir os fiscais da câmara e da polícia por causa das multas de estacionamento que ele julgava ilegais.

E, contudo, nesta memória reconstruída de Lourenço Marques não perpassa qualquer simpatia pelos "bons velhos tempos" ou branqueamento da sociedade colonial, ainda que se diga, a certa altura que a cidade agora é suja, "com merda onde deviam estar flores", consequência nefasta (entre outras) da guerra civil e da catastrófica experiência "socialista".
Francisco José Viegas escreve bem, escorreitamente. A história policial que serve de enredo ao romance é interessante e prende a atenção do leitor.
Mas...vou arriscar, talvez sem razão: só sentirá plenamente o prazer da leitura deste livro quem tiver vivido, ainda que por interposta pessoa, em Moçambique ou em Lourenço Marques ou mesmo em Maputo

Francisco José Viegas
"Lourenço Marques"
Edições ASA (2002)














2.1.12

CITAÇÃO XI




O termo memória colectiva é original do sociólogo francês Maurice Halbwachs que o
define da seguinte forma:

“Memória colectiva é o processo social de reconstrução do passado vivido e experimentado por um determinado grupo, comunidade ou sociedade. Este passado vivido é distinto da história, a qual se refere mais a fatos e eventos registados, como dados e feitos, independentemente destes terem sido sentidos e experimentados por alguém.”  (HALBWACHS, Maurice. Fragmentos da la Memoria Coletctiva)


A comunicação e o pensamento dos diversos grupos da sociedade estão estruturados em marcos, na verdade marcos sociais da memória. Os marcos da memória colectiva podem ser divididos em marcos temporais e marcos espaciais. Por marcos temporais entendem-se os fatos e períodos que são considerados socialmente significativos, por exemplo; uma festa, nascimento de alguém, mudança de estação, etc., onde uma recordação é reconstruída. Os marcos espaciais da memória colectiva mantêm a memória viva por mais tempo, pois é caracterizado pela lembrança ou recordação a partir de lugares; um edifico ou um lugar específico.
Halbwachs dedica uma investigação mais pormenorizada a respeito dos espaços da memória.

“Não é certo que para poder recordar é necessário se transportar com o pensamento fora do espaço, pelo contrário, é a imagem do espaço que, em razão de sua estabilidade, nos dá a ilusão de não mudar através do tempo, e de encontrar o passado dentro do presente, que é precisamente a forma em que pode definir-se a memória, somente o espaço é tão estável que pode durar sem envelhecer nem perder alguma de suas partes.”   ( ibidem)

A memória é então o passado que se encontra no presente, e o espaço é fundamental
para isto, pois as recordações serão sempre vivas ao deparar-se com ele.


CLAUDINEI FERNANDES PAULINO DA SILVA
 "A Teoria da Memória Coletiva de Maurice Halbwachs
em Diálogo com Dostoievski : Uma Análise Sociológica
Religiosa a partir da Literatura"


1.1.12

2012 - Mais uma corrida, mais uma viagem...



No carrossel da vida há  corridas para todos os gostos; umas alegres,  outras menos entusiásticas.
Desta em que agora entro, não espero muita euforias. Tenho mesmo  a certeza de que se vai concretizar a antiga maldição chinesa: vou viver "tempos interessantes". 
Mesmo assim, talvez durante a corrida volte a visitar Montepuez... 

2012


Stock esgotado.

"Picado" no blog "Duas ou três coisas" do meu amigo Francisco Seixas da Costa