A propósito de um post anterior, o meu primo Lelo enviou-me a mensagem:
"Vou tentar fazer um pequeno
comentário a propósito do busto do Churchill, de quem o teu pai era, sem
dúvida, um admirador. Lembro-me de com ele conversar, nos anos anteriores à sua
ida para Portugal, a propósito do Churchill, sobre o que poderia ser o melhor
sistema político para Moçambique. Como te recordas, estavamos em plena época da
declaração do regime marxista por decreto, o que o deixava, obviamente,
bastante inquieto. Para mim era ainda o tempo das ilusões, mas, na verdade já
menos entusiasta do que antes. Após algumas conversas, e de novo regressado de
Montepuez, trouxe-me três livros dos discursos do Churchill, cuja leitura me
recomendou. Interrogo-me agora se não terás sido tu que lhos trouxeste numa das
tuas férias? Lembrei-me agora de os procurara, pois estão dentro deuma caixa de
arquivo juntamente com outros livros a necessitar de restauração. Estão já
muito amarelecidos e com as folhas quase todas soltas. Mas, estão protegidos! O
que era para mim interessante era como ele defendia então a democracia tal como
era interpretada pelo Churchill."
O meu Pai não era o que, na altura, chamaríamos um "democrata" nem sequer um "oposicionista". Mas era um Homem excepcionalmente culto e, sobretudo, de muito boa formação moral.
Durante a Guerra, "por ódio ao boche" como ali escrevi, mas também por amor à "sua" França, brutalmente violentada pela besta nazi, não hesitou por um momento, ao contrário do Governo português, em defender os Aliados e o seu líder e inspirador Winston Churchil e passou, também, a apreciar o General De Gaulle, dirigente da "França Livre".
Desta admiração fui testemunha, então já capaz de entender a política e os seus desenvolvimentos, em 1958, quando, na sequência do "Golpe dos Generais" de Argel, De Gaulle voltou "aux affaires", como dizia.
Como disse Proust, "a melhor parte da nossa memória está (...) fora de nós. Está num ar de chuva, num cheiro a quarto fechado ou no de um primeiro fogaréu, seja onde for que de nós mesmos encontremos aquilo que a nossa inteligência pusera de parte, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando se esgotam todas as outras, sabe ainda fazer-nos chorar".
18.11.11
17.11.11
Apontamentos sobre as origens históricas de Montepuez (2)
São parcas
as referências a Montepuez e à sua história até às duas primeiras décadas do
século XX, talvez porque não se conhecem na zona operações de vulto, devido,
diz alguma documentação administrativa, à “passividade das suas populações”.
Ora, estando Montepuez situada bem no coração do país Medo (também se diz Meto
ou Metho), esta ideia pode ser facilmente contestada, uma vez que são por
demais conhecidas as dificuldades das forças portuguesas e da Companhia do
Niassa para submeter a região.
Montepuez (também
chamado por Montepezi ou Montepuezi) aparece referenciado no Dicionário
Corographico da Província de Moçambique de 1889, como “uma povoação situada nas
margens do rio do mesmo nome, distrito de Cabo Delgado”.
O
Dicionário Corographico da Província de Moçambique de 1919 (1º volume),
refere-se a Montepuez como sendo um “posto militar do território da Companhia
do Niassa, no concelho do Medo”, na longitude aproximada de 39º 5´ (E.G.).
Estava situado na margem direita do rio Montepuez, a cerca de 145 quilómetros do litoral[1].
[1]. Refre-se certamente à distância em linha recta, pois
sabemos que Montepuez dista de Pemba aproximadamente 250 quilómetros .
Nota minha: Aliás, como se pode ver neste post, o Governador Ernesto Jardim de Vilhena, da Companhia do Niaassa, já refere, em 1905, num célebre Relatório, "Montepues" (sic) como sede do "Concelho do Medo".
Apontamentos sobre as origens históricas de Montepuez (1)
Inicio hoje uma série de posts
sobre a história de Montepuez.
Trata-se de breves apontamentos,
sem grandes preocupações científicas (tal como a série “Montepuez na Grande
Guerra”), mas que se inscrevem naquela “zona de penumbra entre a história e a
memória” de que fala Eric Hobsbawm e que eu transcrevi no post Citação IX.
De resto, publiquei aquelas
palavras do autor d’ “A Era dos Impérios” como uma espécie de epígrafe para
esta série.
O seu conteúdo deve-se
essencialmente ao meu primo Aurélio Rocha (Lelo) da Universidade Eduardo
Mondlane, historiador, com uma obra publicada já vasta.
Complementarei, quando for caso
disso, os apontamentos do Lelo, assinalando sempre esse facto, pelo que, se
nada estiver dito, pode concluir-se que se trata de palavras suas e não minhas.
15.11.11
Citação IX
Eric J. Hobsbawm in "A Era dos Impérios"
14.11.11
Carnavais - IV
A foto colectiva dos três manos - ah! o amor fraternal... - é tirada em frente à casa da Tia Conceição.
As outras, na respectiva varanda.
O casamento da Belita
O casamento da minha prima Belita Ramalho com o Manuel dos Santos, então Chefe dos CTT ,foi um acontecimento marcante na vida da Vila (hoje orgulhosa Cidade) de Montepuez.
Estas duas fotografias foram-me enviadas, tal como a que ilustra o post anterior, pelo Júlio, irmão da gentil noiva e que figura, impecável no seu lacinho e no bigode à Errol Flynn, no lado direito da foto de cima.
Aí se vêem, além dos felizes nubentes e do jovem galã Júlio Ramalho, os pais da Belita, a Tia Aninhas e o Tio Joaquim Ramalho, de quem já falei várias vezes e de quem falarei muitas mais. Atrás, na soleira da porta, a Ermelinda.
Na foto de baixo, além dos noivos e pais da noiva, do lado esquerdo da imagem, a Tia Irene e o Tio Rocha e, à direita, os meus Pais.
Ainda do lado esquerdo, parecendo espreitar e à frente de um garboso cipaio, o meu irmão Turita.
Um trio
O trio é composto pelo Rosa, então funcionário do Quadro Administrativo, à esquerda, pelo "Necas" Pimenta de Castro e pelo "Toninho" Barbas, ainda nosso primo.
O mais curioso não é que eu tivesse, imediatamente, identificado os três; seria estranho é que eu não os reconhecesse.
Não, o mais curioso é que, sem quaisquer outras referências, tivesse, de imediato, identificado - assim como a minha irmã Lena, com quem passei o fim-de-semana a organizar recordações - o local onde a fotografia foi tirada: a ponte sobre o Lúrio que passávamos nas viagens para Nampula. É, de facto, uma estranha coisa, a memória...
10.11.11
O busto de Churchill e o seu charuto
No canto da sala do Natupile que o meu Pai reservara para
lhe servir de escritório havia uma enorme secretária de madeira escura e linhas
modernista. Uma parte da face exterior, encurvada em quarto de lua, era constituída por duas ou três fileiras de
estantes .
Juntamente com as que ocupavam os dois segmentos da
esquina da sala, ofereciam lugar para bastantes livros.
Ainda voltarei ao assunto.
Numa das estantes, havia um busto de Churchill, parecido com o que ilustra este post mas que tinha uma cor diferente, um tom de marfim envelhecido e, se bem me lembro, um sorriso mais acentuado e sardónico.
Na época, durante os anos do pós-guerra, a popularidade de
Winston Churchill era, ainda, avassaladora, maior do que a de qualquer estrela
de cinema ou figura da cultura (que ele , de resto, também era).
A presença do busto no escritório de meu Pai, que julgaria rever-se nas doutrinas conservadoras se tivesse vivido em Inglaterra, era uma
espécie de proclamação, uma afirmação pública anglofilia e ódio ao boche.
Para mim, na altura, o busto era um objecto fascinante, não
porque eu tomasse partido pelo Churchill contra o Atlee ou pela City contra os
Sindicatos – polémicas que não me interessavam sobremaneira - mas fundamentalmente porque o icónico
charuto do Velho Leão era…amovível! Podia retirar-se da boca churchilliana,
deixando, no seu lugar, uns lábios retorcidos a formar um buraco e, depois,
voltar a colocar-se e recompor a face rubicunda. Podia mesmo servir para meter
na nossa própria boca como se fosse um verdadeiro charuto!
Nunca esqueci esse busto.
Há algumas semanas, na montra de uma loja de bric-a-brac, vi um objecto igualzinho ao
do meu pai, até na cor e no aspecto de louça craquelée, com aquelas minúsculas redes de finíssimas rachas que
exibem as porcelanas antigas.
Tive ímpetos de entrar e comprá-lo.
Mas…não era o mesmo busto. E quem sabe quem já teria tido andado com aquele charuto na boca...
9.11.11
Montepuez na Grande Guerra - V
![]() |
| Metralhadora alemã |
Transcrevo alguamas passagens
da obra do General Lettow-Vorbeck,
As Minhas Memórias da África Oriental, que foi traduzida, em 1923, por Abílio Pais de Ramos:
As Minhas Memórias da África Oriental, que foi traduzida, em 1923, por Abílio Pais de Ramos:
“O destacamento de Wahle, que nos havia seguido de Chirumba
para Mtende, foi isolado por diversas companhias inimigas que apareceram
inesperadamente numa posição à sua retaguarda, e que interromperam os serviços
de ligação e transportes. 0 General Wahle desembaraçou-se engenhosamente desta
situação desconfortável, e conseguiu aproximar-se mais do Quartel General, em
Nanungu.
Encontrámos aqui víveres em abundância e recomeçámos o
estabelecimento de postos de racionamento e depósitos de géneros na região
entre Nanungu e Namuna, e ainda mais para o sul.
Havia muito boa caça, e os indígenas apresentavam-se voluntariamente com os
produtos das hortas e com mel, para os trocarem por fato e por carne.
Apareceram muito a tempo uns frutos muito doces que amadureciam aos milhões em Nanungu. Eu preferia
come-los em conserva.
Ainda encontrámos outras especialidades, como por exemplo,
tubaras O cantar dos galos proclamava bem alto e a distancia a existência de
ovos e galináceos pelo campo.”
Nota: Nanungu é, certamente, o NUNGO,
a localidae relativamente próxima de Mocímbua; e Namuna, não tenho dúvidas,
correponde a Namuno, há trinta anos
um Posto Administrativo pertencente a Montepuez e hoje o Distrito do mesmo nome,
onde o meu Tio Júlio Ferreira tinha uma machamba.
“Em 5 de Dezembro, o Capitão
Koehl, com 5 companhias, uma peça e uma coluna de munições, partiu de Nangwale
em direcção ao distrito de Mwalia-Médo. Quanto a mim, continuei a marcha pelo
Ludjenda.”
Nota: Já aqui
falei do Régulo Mualia e da sua região,
na qual estava situada a machamba do meu Pai, o Natupile. Tenho, agora, a confirmação de que as tropas alemãs
tinham estado na zona do Natupile (e, talvez, aí tivessem decorrido combates ou
escaramuças), o que, segundo julgo (mas não juro…), penso ter ouvido referir ao
meu Pai.
“O início da estação das chuvas não coincidiu bem com a
precisão dos indígenas. Houve algumas bátegas de água violentas, mas esta
escoava-se rapidamente para o rio Msalu, a principal linha de água da região,
que em pouco tempo se encheu por forma a constituir um obstáculo forte.
(…)
Encontrámos aqui víveres em abundância e recomeçámos o
estabelecimento de postos de racionamento e depósitos de géneros na região
entre Nanungu e Namuna, e ainda mais para o sul. Havia muito boa caça, e os
indígenas apresentavam-se voluntariamente com os produtos das hortas e com mel,
para os trocarem por fato e por carne. Apareceram muito a tempo uns frutos muito
doces que amadureciam aos milhões em Nanungu. Eu preferia come-los em conserva. Ainda
encontrámos outras especialidades, como por exemplo, tubaras O cantar dos galos
proclamava bem alto e a distancia a existência de ovos e galináceos pelo campo.”
Nota: De
novo, referências ao Nungo e a Namuno. E, agora, aparece o Rio Msalu, o “nosso” Messalo que corre junto ao Nairoto. Aí houer, certamente, combates.
E lembro-me bem (assim como o meu irmão Turita), de uma enorme caverna não
natural escavada na parede de um desses colosssos granítico que emergem do solo
na região; e recordo-me que “sabiamos” que tinha sido “um tiro de canhão” o que
causara o fenómeno.
8.11.11
Nairoto?
A minha prima Fernanda, o Fernando ao volante e o Joca no capot do Jeep.
Deve ser no Nairoto porque parece divisar-se, ao fundo do lado direito, a célebre pérgola.
Citação VIII
"Trata-se da amnésia, ou seja, do esquecimento, e da
anamnese, ou
seja, a tentativa de rememorar para recuperar o que já foi
vivido a fim de se
compreender o que se é.
Ora, a amnésia resulta de um processo de selecção que decorre
do facto de a memória, por um lado, reter e registar o que é
considerado como sendo
significativo e, por outro, rejeitar e relegar ao
esquecimento aquilo que não interessa. A
anamnese surge como um trabalho de busca da memória, ou
seja, como uma tentativa
de rememorar e de recuperar o passado, prestando especial
atenção, neste percurso de
marcha atrás, nas eventuais resistências à lembrança, já que são estas últimas que
podem, de alguma forma, dar indicações sobre as razões que
fizeram com que certos
dados fossem registados e outros abandonados. O processo de anamnese me interessa
particularmente, pois acredito que é, através dele, que o
Outro que existe em cada um (e
que, em geral, não é reconhecido como tal, uma vez que faz parte do mesmo) vai se
revelando preferencialmente a partir dos impasses criados
nas zonas de resistência ao
movimento de rememoração."
Burr e Memorial do Convento ou a superação do(s) Abuso(s) da Memória
ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS
IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE
LITERATURA COMPARADA
7.11.11
Inauguração da Estação dos Correios
![]() |
| Fotografia de celestino Gonçalves |
Já aqui falei da Estação da Estação dos Correios. Perguntei-me, então, se a data não seria em "finais dos anos cinquenta".
Tinha razão: confirma o meu amigo Celestino Gonçalves, a quem agradeço de novo a autorização para usar as suas fotos, que foi em 1958.
Estão retratadas muitas pessoas que reconheço imediatamente (entre elas, como sempre, uma poderosa representação da "tribo"), outras que reconheço e identifico mas cujo nome não me vem à memória, outras, finalmente, cujas feições (há que dizê-lo) não.reconheço de todo.
À esquerda a Minha Tia Irene (Rocha) e a Senhora D. Lourdes Gonçalves , mulher do autor da foto, com o filho ao colo; num plano mais baixo, o sorriso radioso da Ermelinda, não sei se já casada com o meu primo Aníbal Ramos, que espreita pela porta entreaberta; à frente deste, um pouco encoberta, a prima Maria Cândida e a minha Tia Ana (Aninhas) Ramalho; de pé, olhando um pouco de esguelha, a minha prima Belita Ramalho que viria a casar com o anfitrião, o Chefe do Posto dos CTT Manuel dos Santos; a seguir, a mulher do Sr. Viegas (julgo que quem se apoia no seu ombro é o filho); o jovem de camisola escura pelos ombros é o meu primo "Lelo" Rocha e ao lado, a mandar parar tudo, com a exuberância que era uma das suas características, a Tia Mariana, proprietária e alma da Pensão Residencial Mariana e viúva do meu tio Serafim Russo, o irmão mais velho de minha Mãe e responsável pela instalação da minha Avó Nazaré e das suas filhas em Montepuez; logo abaixo do braço estendido, a Senhora D. Gracinda Viegas.
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