28.2.12

Contei aqui como uma crise religiosa, ajudada por alguma preguiça matinal, me armou de coragem para informar o Poder Paternal (e Maternal) de que tinha "perdido a Fé".
Para esse gigantesco salto epistemológico muito tinham contribuído os colégios religiosos em que estive interno, sobretudo a pedagogia jesuítica praticada no Colégio das Caldinhas, o vetusto Instituto Nun'Alvres (sic).
Mas o agnosticismo só me atacou bastantes anos depois desta fotografia, que imortalizou a data da minha Primeira Comunhão, dia entre todos glorioso, como se pode constatar pela pose extática de catecúmeno.
O acontecimento deve ter tido lugar por volta dos meus 8 anos (1951).

27.2.12

O escritório

No edifício mais pequeno funcionava o escritório de "A. Augusto Dias & Cia. Lda.".
No maior, havia um armazém, uma oficinazinha e uma loja de "comércio geral", como se dizia, cuja entrada se vê.
Estacionado junto ao escritório está o Chevrolet mostrado aqui, repintado.
Em 1962,  acreditando que a greve e o "Luto Académico" decretados pelas Associações de Estudantes em resultado da proibição das comemorações do Dia do Estudante, de que se comemoram os 50 anos nos próximo dia 24 de Março, eram para "ir até ao fim", anunciei orgulhosamente aos meus Pais, cheio de veleidades revolucionárias (tinha sido recrutado para o PCP clandestino uns meses antes) que me recusava a fazer exames. 
Corria o mês de Maio. 
Em fins de Abril, juntamente com o Fernando Vilhena e o Arsénio, tinha ido, cerca da meia-noite, reconfortar o estomago com um bacalhau assado no Bolero, um bar na Mouraria, como preparação para uma madrugada de pichagens de paredes apelando à manifestação (obviamente proibida) do 1º de Maio. 
À saída do estabelecimento, fomos abordados por alguns indivíduos de péssimo aspecto que nos conduziram à Rua António Maria Cardoso, onde se situava a sinistra sede da PIDE.
Hei-de contar com mais vagar esta história.
Perante o meu combativo anúncio sobre a recusa dos exames, recebi ordens para regressar imediatamente a Montepuez e fui intimado a trabalhar, durante todo o período de longas "férias"que se seguiu. Passei, então, a ser acordado, todos os dias às 6h30 da manhã, dirigindo-me em seguida ao escritório, onde mergulhava nas delícias da contabilidade comercial.
O pior foi suportar a amarga ironia do meu Pai quando, pouco tempo depois, foi decretado o fim da greve e a Academia aceitou que se fosse aos exames.

26.2.12

Citação XIV



De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-Ias voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória.

Henri Cartier-Bresson
O Momento Decisivo

25.2.12

Carnaval IX



Da esquerda para a direita, a minha filha Sofia em Pipi das Meias Altas, o meu sobrinho Luís em Palhaço Triste e a minha sobrinha Carla em Chinesa.                                                




 A Carla e o Luís nasceram em Montepuez.
A Sofia nem sequer esteve alguma vez em Moçambique.
É exactamente por isso que, de certa e negativa forma, também está relacionada com Montepuez.
De qualquer maneira, tenho que arranjar pretextos para a 
incluír no blog, como fiz aqui.

24.2.12

Teresa e Augusto Zé

Os meus primos Teresa e Augusto Zé Russo Ferreira, junto à piscina do Natupile.
Os Pais, a Tia Silvina e o Tio Júlio, tinham uma machamba em Namuno mas habitualmente estavam em Montepuez.
O Augusto Zé era um dos melhores "assobiadores" de Montepuez e arredores, título que disputava com o Claudino Bagorro, Depois de vir de Coimbra, aventurava-se por cantorias de mornas e coladeras que colegas caboverdianos o  tinham feito descobrir.
Mas bom, bom mesmo, era nas canções mexicanas, tipo "Cucurrucucu paloma" e similares, cheias de gorgeios e efeitos de voz (a qual estava longe de ser excelente).
Era, também, exímio no poker de dados com que dirimiamos quotidianamente a dúvida de saber quem pagava o whisky pré-almoço, na varanda do Teixeira & Ramalho. 
Mas isso foi uns bons anos mais tarde...

23.2.12

Afirma a Lena


Escreve a Lena, no verso da fotografia:


Esta fotografia é a única em que a nossa Mãe está com todas as Tias. Está o Almeida, a Mãezinha, a Tia Aninhas, a Tia Conceição, a Tia Mariana (de chapéu), a Tia Silvina e a Tia Irene.


E, digo eu, no meio, a Belita, a Fernanda e a Teresa. Acho que, atrás da Belita, a espreitar, é a Lena. À frente, de pé e com um joelho enfaixado, apresenta-se o Beto. Não identifico quem está a seguir mas, depois, estou eu e o Lelo.
Não sei se é a única em que estão todas. 
Julgava que havia, pelo menos, uma outra. Mas, de facto, falta nela a Tia Irene.

É esta.

21.2.12

Safari no Lugenda 2

Outra vez uma fotografia que a Lena assinalou como sendo de um "Safari no Lugenda", tal como a que postei há tempos.
Embora não esteja muito nítida, parece-me reconhecer o meu primo António Junqueiro, tio do João e do José (ver aqui), caçador profissional, aventureiro e outras coisas...
Talvez lhe venha a dedicar um post; ou talvez não.

20.2.12

Carnaval VIII









Porque estamos em quadra de Carnaval (ainda que sem tolerância de ponto) repito esta fotografia.
Provavelmente estava em cima de um banquinho.

Em cima de cadeiras, em cima de mesas








Quando não era em cima de cadeiras, era em cima de mesas.

18.2.12

"O Turita com um cãozinho muito engraçado"

O título deste post é uma frase que está escrita no verso da foto que o ilustra, numa caligrafia muito infantil que pode ter sido a minha.
O Turita teria três ou quatro anos; se assim fosse, eu teria seis ou sete.
O que acho interessante na fotografia é a mania que tinham de nos pôr em pé em cima da cadeiras! Tenho várias fotos em que isso aconteceu e pergunto-me que obscura razão haveria. 
Deve ter a ver com o foco da máquina, talvez com a rigidez de um tripé cuja altura não pudesse ser alterada. 
Seja como for, parece-me estranho...
Outro aspecto interessante - e que é patente neste caso - é o ar solene, quase hierático que nós, os pequenos modelos, adoptavamos.
Aqui, a explicação é, talvez, mais fácil de imaginar; seria o "olh'ó passarinho" ou o "quieto, agora" que tentava garantir êxito logo à primeira tentativa, que os rolos eram caros, a revelação feita longe (não havia profissionais de fotografia em Montepuez e os rolos eram enviados para Nampula ou Lourenço Marques).
Dizem que a fotografia congela no tempo um dado momento.
Quem parecia congelado éramos nós...

17.2.12

Marilena

 Clique sobre a foto para aumentar
Em que meditaria a minha irmã Lena?
Talvez em algo que lera no livro que agarra. Ou na vida, como todos fazemos de quando em quando.
Lembro-me bem do jarro chinês e da mesa de sândalo sobre a qual está a fotografia de meu Pai. O abat-jour do candeeiro era encarnado e o pequeno dente de elefante trabalhado julgo que ainda existe na casa da Marilena.

16.2.12

Daniela

No verso da foto pode ler-se, na a caligrafia infantil da Lena, "Oferecida pela minha querida amiga Maria Daniela".
A Daniela foi o meu primeiro amor, tinha eu sete ou oito anos, e julgo que disputei com o meu primo Beto as suas atenções.
Era muito bonita, a Daniela - e tenho a certeza que continua a ser. Tinha um sinalzinho preto na face e uma pequenina falha triangular dos dois dentes da frente.
 Meu Pai (esq.) com o Pai da Daniela 
Era a filha da Srª. D. Guilhermina e do Sr. Silvestre, Director da SAGAL, e irmã da Carla e do Tozé (?).
A Daniela!
Voltei a vê-la em Lourenço Marques, muitos anos mais tarde, frequentando o Colégio D. António Barroso, onde reencontrou, também, a sua "querida amiga", a minha irmã Lena. 

15.2.12

Safari no Lugenda

É a caligrafia da minha irmã Lena que parece indicar que este é o Rio Lugenda.
Tenho a certeza que não participei neste safari mas tenho outras fotografias que parecem ser da mesma ocasião.
Hoje, uma boa parte do Lugenda está integrado num Parque Nacional.  
Abunda a fauna selvagem, com destaque para os elefantes que estiveram à beira da extinção devido à guerra civil.
Existe um ressort que, segundo parece, tem excelentes condições e dizem-me que tem cada vez mais turistas a procurá-lo.
Não pude constatá-lo pessoalmente mas, a julgar pela qualidade do ressort de Matemo, nas Quirimbas, onde estive e que pertence à mesma empresa hoteleira, não me custa acreditar.

14.2.12

Assim falou o Turita!

A propósito deste post, o Turita disse-me:

" Nunca o ouviste falar na tropa?!!
Eu lembro-me muito bem. Desta fotografia, por acaso, também não me lembro mas lembro-me doutra, de corpo inteiro, fardado, também com capacete colonial e polainas militares...
Até contou várias vezes que, na tropa, como só tinha papeis escolares franceses, era oficialmente analfabeto mas foi o escolhido para dar aulas aos recrutas, no Quartel...
Acho que fez a tropa em Porto Amélia."


Pronto, Turita, já á não está quem falou.
São coisas da memória.