28.1.12

A tribo, mais uma vez


Já publiquei aqui  uma fotografia que deve ter sido feita na mesma ocasião: o carro é o mesmo, as crianças também, está o Almeida.
Há, porém, duas outras personagens: à direita o meu Tio António Teixeira (o "Teixeira" de Teixeira & Ramalho), prematuramente desaparecido, casado com a Tia Conceição e pai do Zé Maria e da Fernanda, que está à sua direita. À esquerda, o An´íbal, que viria a casar com a Ermelinda e, bastante depois da época da foto, haveria de instalar-se na África do Sul. Ao lado da Fernanda está a minha prima Teresa Russo Ferreira que tem a mão protectora no ombra da minha então minúscula irmã Lena. O Augusto Zé, irmão da Teresa, é abraçado por uma menina de feições estranhamente familiares (isto porque não sou capaz de a identificar). Depois está a minha prima Belita Ramalho. Por fim, empoleirado no capot do carro, este vosso amigo.


27.1.12

Festa no Natupile

De vez em quando, havia festas no Natupile. Vinham, então, verdadeiras excursões de Balama e Montepuez.
As duas fotos que ilustram este post ilustram uma dessas ocasiões.

Tenho alguma dificuldade em identificar a maioria das pessoas presentes. Na de cima, está o meu Pai à esquerda, em primeiro plano e, ao fundo, sentado "ao contrário" na cadeira, o senhor Cunha Alegre (tal como na outra foto, em que aparece do lado esquerdo).
 Na fotografia seguinte, além do já citado Cunha Alegre,  reconheço a Tia Mariana, a única senhora que está de frente para o fotógrafo. Ao fundo, um gandulo descalço, comme il faut e era a regra no Natupile, parece ser o meu primo Beto. Distingo, ainda, a minha prima Fernanda e o Almeida. O último, à direita, julgo ser o Rosa, colega e amigo do Almeida.
Nesta festa, teria acontecido, reza uma crónica, um precalço que foi, durante muito tempo, tema de conversa e gargalhada.

A Tia Irene era, já o disse neste blog, um respaldo e fornecia lugares de exílio e protecção para qualquer de nás, em caso de f´´uria adulta e risco de castigo (não creio que os filhos, Beto e Lelo usufruissem da mesma magnanimidade) e, portanto, era adorada pela criançada.
Mas, nesse dia, por medo, repugnância ou má disposição, recusou as facécias de um pequenino macaco que tinha sido adoptado por nós.
O símio, que não tinha a boa índole da Tia Irene, escorraçado por esta, tomou-a de ponta, se assim me posso exprimir.
Amuado, subiu para a árvore debaixo da qual se sentava a sua inimiga e, num acto de inqualificável desforço, atingiu-a com um vingativo chichi.

Citação XII




Se destacamos essa característica flutuante, mutável, da memória, tanto individual quanto coletiva, devemos lembrar também que na maioria das memórias existem marcos ou pontos relativamente invariantes, imutáveis. Todos os que já realizaram entrevistas de históriade vida percebem que no decorrer de uma entrevista muito longa, em que a ordem cronológica não está sendo necessariamente obedecida, em que os entrevistados voltam várias vezes aos mesmos acontecimentos, há nessas voltas a determinados períodos da vida, ou a certos fatos, algo de invariante.
É como se, numa história de vida individual - mas isso acontecei gualmente em memórias construídas coletivamente houvesse elementos irredutíveis, em que
o trabalho de solidificação da memória foi tão importante que impossibilitou a ocorrência de mudanças.
Em certo sentido, determinado número de elementos tornam-se realidade, passam a fazer parte da própria essência da pessoa, muito embora outros tantos acontecimentos e fatos possam se modificarem função dos interlocutores, ou em função do movimento da fala.

Quais são, portanto, os elementos constitutivos da memória, individual ou coletiva?

Em primeiro lugar, são os acontecimentos vividos pessoalmente. Em segundo lugar, são os acontecimentos que eu chamaria de "vividos por tabela", ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer.

(...)

Além desses acontecimentos, a memória é constituída por pessoas, personagens. Aqui também podemos aplicar o mesmo esquema, falar de personagens realmente encontradas no decorrer da vida, de personagens freqüentadas por tabela, indiretamente, mas que, por assim dizer, se transformaram quase que em conhecidas, e ainda de personagens que não
pertenceram necessariamente ao espaço-tempo da pessoa. Por exemplo, no caso da França, não é preciso ter vivido na época do general De Gaulle para senti-lo como um contemporâneo.

Além dos acontecimentos e das personagens, podemos finalmente arrolar os lugares.

Existem lugares da memória, lugares particularmente ligados a uma lembrança, que pode  ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no tempo cronológico.
 Pode ser, por exemplo, um lugar de férias na infância, que permaneceu muito forte na memória da pessoa, muito marcante, independentemente da data real em que a vivência se deu. Na memória mais pública, nos aspectos mais públicos da pessoa, pode haver lugares de apoio da memória, que são os lugares de comemoração.   

MEMÓRIA E IDENTIDADE SOCIAL
Michael Pollak (1987)


26.1.12

GUERRA MARQUES III

Encontrei mais uma foto para a série "Guerra Marques": a Isabel com as meninas, na praia.

Julgo que esta é a último que tenho em minha posse mas, se aparecerem mais, vou postá-las.

25.1.12

A travessia do Rio Messalo


Quando íamos ao Nairoto, onde pontificava, como Administrador de Posto, o meu primo António de Almeida, ainda se atravessava o Messalo de jangada.



A vegetação densa, o rio que eu imaginava fervilhante de crocodilos, o parrot, tudo sugeria aventura, Edgar Rice Burroughs e "Tarzan dos Macacos" (às vezes "Jungle Jim"). 
No Nairoto havia elefantes bebés e, se bem me lembro, uma gazela. Para nós, cada ida ao Nairoto era uma festa.

A mana Lena versão anos 60



Um carimbo da Foto Portuguesa, Av. da República, 50, de Lourenço Marques, no verso da foto indica que se trata do Cliché 578/63.Mas lá que a mana era linda, lá isso era...
E continua a ser.aption

24.1.12

Errâncias IV


Meu Avô António Augusto e meu Pai chegaram a Moçambique nos idos de 1930.
Nessa altura (e até bastante tarde na história do colonialismo português) era exigida, a quem quer que desejasse emigrar para as possessões coloniais, uma “carta de chamada”, uma espécie de termo de responsabilidade de alguém já lá instalado.
Algodão no Natupile-meu Pai à direita
A “carta de chamada” não era mais do que uma forma de manter sob rigoroso controlo do Estado a população branca que iria,  em nome da “nação portuguesa”,na linguagem pomposa do Acto Colonial de 1930, “desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se compreendam”.
O responsável da “carta de chamada”  foi um parente, cunhado de minha Avó Amélia, o Tio Sobral.
Este era uma figura invulgar, um velho pioneiro larger than life, casado com a Tia Ana Sobral, de quem se dizia ter sido a primeira mulher branca a habitar, de forma permanente, o norte de Moçambique.
A Lena num Pomar no Natupile
Originários de Freixo de Espada à Cinta, deram o nome de Nova Freixo à Vila de Cuamba,  o que perdurou até 1975, quando, por fim, a povoação voltou à sua inicial e legítima designação.
Os bustos deste casal ornamentaram o principal jardim de Cuamba e eles foram, durante muitos decénios, uma espécie de patronos da Vila, os principais proprietários agrícolas e do comercio da região.
Este Tio Sobral tinha decidido abandonar a zona de Montepuez.
Deixou, então, uma machamba que possuía, o Natupile, a meu Pai.
Pé descalço e boa-vai-ela-Turita e eu
Rezam as crónicas que terá dito a meu Pai: “Agora, governa-te...”.
O Natupile foi, desde a primeira infância, uma espécie de “lar primordial” – mesmo quando vivíamos em Montepuez, eu sentia que estávamos de passagem, que a nossa estadia não era permanente porque a “casa” a verdadeira casa, era o Natupile.
A minha Irmã Maria Helena nasceu no Natupile e , juntamente com ela e com o Turita, foi lá que vivi os primeiros anos da meninice.
Lá li as primeiras revistas (“O Mosquito”, o “Mundo de Aventuras”) e os primeiros livros (Salgari, Paul Féval, Ponson du Terrail, Dumas).
Lá disparei a primeira pressão de ar, uma Diane, e a primeira espingarda a sério, a Flaubert .22; lá brinquei, tive medo das feras (quando um leão rugia, os “crescidos” diziam que “o leão está a cantar”, uma forma de afastar o terror nocturno inspirado pelos animais selvagens), encantei-me com os primeiros "bichos", cães, gazelas e periquitos.
O som de um motor de automóvel ouvia-se a dez ou quinze quilómetros de distancia e desencadeava uma enorme excitação, porque significava que provavelmente íamos ter visitas.
Nenhum dia era igual ao outro, embora, na minha infantil imaginação, eu confundisse sossego com monotonia.  
O Natupile era a “casa” e era para lá que voltámos sempre.  



23.1.12

Civis, eclesiásticos e militares

Da esquerda para a direita, o Coronel Ermida, comandante de uma unidade militar estacionada em Montepuez, o Bispo de Porto Amélia, meu Pai e um segundo eclesiástico que julgo ser o Arcepispo Custódio e Alvim de Lourenço Marques.
Durante a guerra, a Igreja moçambicana revelou-se muito dividida: bispos como o de Nampula D. Manuel Vieira Pinto e o da Beira D. Sebastião Soares de Resende, secundados por um bom número de padres e intelectuais católicos, tomaram firmes e corajosas atitudes públicas de denúncia do colonialismo e, sobretudo, das violações sistemáticas dos Direitos Humanos que incluíam torturas, assassinatos, massacres de civis e outras violências.
Alguns pagaram caro essa atitude, foram perseguidos, expulsos, presos, vilipendiados na praça pública, como se pode ver pelo ignóbil panfleto que circulou pela colónia.
Com a prestimosa ajuda de muita gente, a PIDE e os poderes públicos não deram tréguas a esse sacerdotes e freiras.
Mas outra parte da Igreja, solidária com aquela que em Portugal sempre serviu de escudo e lança a Salazar, apoiou o regime, silenciou atrocidades, tomou partido pelos opressores contra os oprimidos, pelos fortes contra os fracos, pelos verdugos contra "aqueles que têm fome e sede de justiça".

22.1.12

Onde será?



Os meus Pais com o Turita. Não reconheço o 
local mas ao fundo aparecem vultos de branco, 
alguns dos quais parecem ser padres. À esquerda,
miúdos negros, curiosos, observam, talvez, os
forasteiros.

21.1.12

As duas Tias

A Tia Irene e a Tia Aninhas.
Há imagens que nos interpelam de uma forma curiosa.
Esta fotografia mostra duas das minhas tias num local que não é identificável (por mim), sentadas no que parecem ser bancos de cozinha, ao ar livre.
Ambas sorriem, aparentemente sem se darem conta que estão a ser fotografadas, sem qualquer sugestão de "pose".
Estão a observar um acontecimento, isso parece claro - poderá ser uma festa, um jogo, um espectáculo, talvez crianças a brincar.
O que se estaria a passar? Que estariam a pensar? Haveria comentários, entre elas, sobre aquilo a que assistiam?
Não devia ser nada de misterioso, uma vez que tudo se passa no exterior de qualquer casa ou edifício; mas terá havido consequências importantes (ou interessantes), tristes ou felizes do que quer que seja que contemplam?
Se eu quisesse ser pomposo, diria que, a partir daqui, podia escrever um romance. Policial, por exemplo.

20.1.12

11 anos

Uma inscrição no verso indica a data da fotografia, o dia em que fiz 11 anos.
Não sei onde foi feita mas, nesse ano, terminou o martírio do Colégio das Caldinhas e voltei a Moçambique, para os Maristas de Lourenço Marques.
Elegante no fatinho com calções, abrilhantinado ("brylcreemizado", diria o O'Neil), orelhudo e feliz.

19.1.12

Os Cunha Alegre


No post anterior mencionei o pai Cunha Alegre, a Manela e o Toninho.
Nesta fotografia vê-sa, à esquerda a Srª. D. Maria Luísa Cunha Alegre.
Do lado direito, a minha Mãe.

18.1.12

Carnavais VII

Que me perdoe o leitor deste blog (sei que há um...) o estado lastimável da fotografia, fruto do meu descuido, de viagens sem fim por esse mundo fora e da humidade.



Mas não resisto a publicá-la.
Na fila da frente, as crianças, a Manela Cunha Alegre e o seu irmão "Toninho", um sacristão de batina às bolas.
Na segunda fila, à esquerda a Tia Irene, alguém que a qualidade da foto não permite reconhecer, a Tia Tio Ramalho de elegante chapéu e vestido de alças, à sua frente, quase na fila das crianças, a Tia Aninhas e, a seguir a Srª. D. Dilar, julgo eu.
Na fila de trás, agora a começar na direita, o senhor Cunha Alegre, o rapagão de preto é a Belita, minha prima, e o quinto é meu Pai, de chapéu alto branco.
Renovo o apelo (nunca correspondido) para que me ajudem a identificar pessoas.
Por favor, solitário leitor, ajuda, socorro!


17.1.12

Amor fraternal 5

Em Figueira de Castelo Rodrigo, terra natal de minha Mãe.
Não consigo datar (visitava Portugal pela primeira vez) a foto mas lembro-me do orgulho de envergar as primeiras calças compridas, embora de golfe...
Mais tarde, odiei ser obrigado a vesti-las; fui objecto de gozo da miudagem e houve choro e ranger de dentes por mais de uma vez.
Também me lembro do frio insuportável e de ter frieiras, pela primeira e última vez . Lembro-me do conforto de lareiras e braseiras, artefactos estranhos e exóticos aos meus olhos de criança nascida em África.

16.1.12

Errâncias III



O Sulemane comigo ao colo (detalhe de uma foto) 
O Sulemane acompanhou-me durante toda a minha infância.
Estava encarregado de velar pela minha segurança, em primeiro lugar, mas também pelo meu bem-estar. Encargos pesados, que incluíam defender-me de outros e outras coisas e de mim próprio, assegurar-se de que a alimentação era minimamente aceitável (evitar, por exemplo, que metesse na boca objectos ou materiais inadequados…), tarefas, enfim, de alta responsabilidade e de execução nem sempre fácil.
O Sulemane fazia tudo isto com bonomia, um permanente sorriso e uma dedicação total.
Foi envelhecendo ao meu lado, sempre presente e sempre protector.
Era muçulmano (o nome, corruptela do arábico Suleimane que, por sua vez, traduz o nome Salomão) embora, na época, isso nada significasse para mim.
Deixei de vê-lo, se bem me recordo, quando vim para Portugal e para o Colégio de Stº. Tirso, nos idos dos anos cinquenta.
Terá morrido por essa altura.
Ao longo da minha vida, pensei muitas vezes nele. Sempre com saudade.