14.11.11

Carnavais - IV



A foto colectiva dos três manos - ah! o amor fraternal... - é tirada em frente à casa da Tia Conceição.
As outras, na respectiva varanda.




O casamento da Belita




O casamento da minha prima Belita Ramalho com o Manuel dos Santos, então Chefe dos CTT ,foi um acontecimento marcante na vida da Vila (hoje orgulhosa Cidade) de Montepuez.
Estas duas fotografias foram-me enviadas, tal como a que ilustra o post anterior, pelo Júlio, irmão da gentil noiva e que figura, impecável no seu lacinho e no bigode à Errol Flynn, no lado direito da foto de cima.
Aí se vêem, além dos felizes nubentes e do jovem galã Júlio Ramalho, os pais da Belita, a Tia Aninhas e o Tio Joaquim Ramalho, de quem já falei várias vezes e de quem falarei muitas mais. Atrás, na soleira da porta, a Ermelinda.

Na foto de baixo, além dos noivos e pais da noiva, do lado esquerdo da imagem, a Tia Irene e o Tio Rocha e, à direita, os meus Pais.
Ainda do lado esquerdo, parecendo espreitar e à frente de um garboso cipaio, o meu irmão Turita.


Um trio

O meu primo Júlio Ramalho, a quem pedi ajuda para este blog (o que, de resto, peço também a todos os meus poucos leitores...) mandou-me, lá de São Paulo ,esta foto.
O trio é composto pelo Rosa, então funcionário do Quadro Administrativo, à esquerda, pelo "Necas" Pimenta de Castro e pelo "Toninho" Barbas, ainda nosso primo.
O mais curioso não é que eu tivesse, imediatamente, identificado os três; seria estranho é que eu não os reconhecesse.
Não, o mais curioso é que, sem quaisquer outras referências, tivesse, de imediato, identificado - assim como a minha irmã Lena, com quem passei o fim-de-semana a organizar recordações - o local onde a fotografia foi tirada: a ponte sobre o Lúrio que passávamos nas viagens para Nampula. É, de facto, uma estranha coisa, a memória...

10.11.11

O busto de Churchill e o seu charuto


No canto da sala do Natupile que o meu Pai reservara para lhe servir de escritório havia uma enorme secretária de madeira escura e linhas modernista. Uma parte da face exterior, encurvada em quarto de lua, era constituída por duas ou três fileiras de estantes .
Juntamente com as  que ocupavam os dois segmentos da esquina da sala, ofereciam lugar para bastantes livros.
Ainda voltarei ao assunto.
Numa das estantes, havia um busto de Churchill, parecido com o que ilustra este post mas que tinha uma cor diferente, um tom de marfim envelhecido e, se bem me lembro, um sorriso mais acentuado e sardónico.
Na época, durante os anos do pós-guerra, a popularidade de Winston Churchill era, ainda, avassaladora, maior do que a de qualquer estrela de cinema ou figura da cultura (que ele , de resto, também era).
A presença do busto no escritório de meu Pai, que julgaria rever-se nas doutrinas conservadoras se tivesse vivido em Inglaterra, era uma espécie de proclamação, uma afirmação pública anglofilia e ódio ao boche.
Para mim, na altura, o busto era um objecto fascinante, não porque eu tomasse partido pelo Churchill contra o Atlee ou pela City contra os Sindicatos – polémicas que não me interessavam sobremaneira - mas fundamentalmente porque o icónico charuto do Velho Leão era…amovível! Podia retirar-se da boca churchilliana, deixando, no seu lugar, uns lábios retorcidos a formar um buraco e, depois, voltar a colocar-se e recompor a face rubicunda. Podia mesmo servir para meter na nossa própria boca como se fosse um verdadeiro charuto!
Nunca esqueci esse busto.
Há algumas semanas, na montra de uma loja de bric-a-brac, vi um objecto igualzinho ao do meu pai, até na cor e no aspecto de louça craquelée, com aquelas minúsculas redes de finíssimas rachas que exibem as porcelanas antigas.
Tive ímpetos de entrar e comprá-lo.
Mas…não era o mesmo busto. E quem sabe quem já teria tido andado com aquele charuto na boca...

9.11.11

Carnavais - III


Turita, o temível cipaio!
Não consigo identificar as meninas no lado esquerdo da foto.

Montepuez na Grande Guerra - V

Metralhadora alemã


Transcrevo alguamas passagens da obra do General Lettow-Vorbeck, 
As Minhas Memórias da África Oriental
, que foi traduzida, em 1923, por Abílio Pais de Ramos:


“O destacamento de Wahle, que nos havia seguido de Chirumba para Mtende, foi isolado por diversas companhias inimigas que apareceram inesperadamente numa posição à sua retaguarda, e que interromperam os serviços de ligação e transportes. 0 General Wahle desembaraçou-se engenhosamente desta situação desconfortável, e conseguiu aproximar-se mais do Quartel General, em Nanungu.
Encontrámos aqui víveres em abundância e recomeçámos o estabelecimento de postos de racionamento e depósitos de géneros na região entre Nanungu e Namuna, e ainda mais para o sul. Havia muito boa caça, e os indígenas apresentavam-se voluntariamente com os produtos das hortas e com mel, para os trocarem por fato e por carne. Apareceram muito a tempo uns frutos muito doces que amadureciam aos milhões em Nanungu. Eu preferia come-los em conserva. Ainda encontrámos outras especialidades, como por exemplo, tubaras O cantar dos galos proclamava bem alto e a distancia a existência de ovos e galináceos pelo campo.”

Nota: Nanungu é, certamente, o NUNGO, a localidae relativamente próxima de Mocímbua; e Namuna, não tenho dúvidas, correponde a Namuno, há trinta anos um Posto Administrativo pertencente a Montepuez e hoje o Distrito do mesmo nome, onde o meu Tio Júlio Ferreira tinha uma machamba.

“Em 5 de Dezembro, o Capitão Koehl, com 5 companhias, uma peça e uma coluna de munições, partiu de Nangwale em direcção ao distrito de Mwalia-Médo. Quanto a mim, continuei a marcha pelo Ludjenda.”

Nota: Já aqui falei do Régulo Mualia e da sua região, na qual estava situada a machamba do meu Pai, o Natupile. Tenho, agora, a confirmação de que as tropas alemãs tinham estado na zona do Natupile (e, talvez, aí tivessem decorrido combates ou escaramuças), o que, segundo julgo (mas não juro…), penso ter ouvido referir ao meu Pai.

“O início da estação das chuvas não coincidiu bem com a precisão dos indígenas. Houve algumas bátegas de água violentas, mas esta escoava-se rapidamente para o rio Msalu, a principal linha de água da região, que em pouco tempo se encheu por forma a constituir um obstáculo forte.
(…)
Encontrámos aqui víveres em abundância e recomeçámos o estabelecimento de postos de racionamento e depósitos de géneros na região entre Nanungu e Namuna, e ainda mais para o sul. Havia muito boa caça, e os indígenas apresentavam-se voluntariamente com os produtos das hortas e com mel, para os trocarem por fato e por carne. Apareceram muito a tempo uns frutos muito doces que amadureciam aos milhões em Nanungu. Eu preferia come-los em conserva. Ainda encontrámos outras especialidades, como por exemplo, tubaras O cantar dos galos proclamava bem alto e a distancia a existência de ovos e galináceos pelo campo.”

Nota: De novo, referências ao Nungo e a Namuno. E, agora, aparece o Rio Msalu, o “nosso” Messalo que corre junto ao Nairoto. Aí houer, certamente, combates. E lembro-me bem (assim como o meu irmão Turita), de uma enorme caverna não natural escavada na parede de um desses colosssos granítico que emergem do solo na região; e recordo-me que “sabiamos” que tinha sido “um tiro de canhão” o que causara o fenómeno.

8.11.11

Nairoto?





A minha prima Fernanda, o Fernando ao volante e o Joca no capot do Jeep.
Deve ser no Nairoto porque parece divisar-se, ao fundo do lado direito, a célebre pérgola.

Carnavais - II


Retrato do blogger enquanto pequena criada-de-servir.

Citação VIII




"Trata-se da amnésia, ou seja, do esquecimento, e da anamnese, ou
seja, a tentativa de rememorar para recuperar o que já foi vivido a fim de se
compreender o que se é.  Ora, a amnésia resulta de um processo de selecção que decorre
do facto de a memória, por um lado, reter e registar o que é considerado como sendo
significativo e, por outro, rejeitar e relegar ao esquecimento aquilo que não interessa.  A
anamnese surge como um trabalho de busca da memória, ou seja, como uma tentativa 
de rememorar e de recuperar o passado, prestando especial atenção, neste percurso de
marcha atrás, nas eventuais resistências  à lembrança, já que são estas últimas que
podem, de alguma forma, dar indicações sobre as razões que fizeram com que certos
dados fossem registados e outros abandonados.  O processo de anamnese me interessa
particularmente, pois acredito que é, através dele, que o Outro que existe em cada um (e
que, em geral, não é reconhecido como tal,  uma vez que faz parte do mesmo) vai se
revelando preferencialmente a partir dos impasses criados nas zonas de resistência ao
movimento de rememoração."

Burr e  Memorial do Convento ou a superação do(s) Abuso(s) da Memória
ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS

 Comunicação ao
IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA   

7.11.11

Inauguração da Estação dos Correios

Fotografia de celestino Gonçalves

aqui falei da Estação da Estação dos Correios. Perguntei-me, então, se a data não seria em "finais dos anos cinquenta".
Tinha razão: confirma o meu amigo Celestino Gonçalves, a quem agradeço de novo a autorização para usar as suas fotos, que foi em 1958.
Estão retratadas muitas pessoas que reconheço imediatamente (entre elas, como sempre, uma poderosa representação da "tribo"), outras que reconheço e identifico mas cujo nome não me vem à memória, outras, finalmente, cujas feições (há que dizê-lo) não.reconheço de todo.
À esquerda a Minha Tia Irene (Rocha) e a Senhora D. Lourdes Gonçalves , mulher do autor da foto, com o filho ao colo; num plano mais baixo, o sorriso radioso da Ermelinda, não sei se já casada com o meu primo Aníbal Ramos, que espreita pela porta entreaberta; à frente deste, um pouco encoberta, a prima Maria Cândida e a minha Tia Ana (Aninhas) Ramalho; de pé, olhando um pouco de esguelha, a minha prima Belita Ramalho que viria a casar com o anfitrião, o Chefe do Posto dos CTT Manuel dos Santos; a seguir, a mulher do Sr. Viegas (julgo que quem se apoia no seu ombro é o filho); o jovem de camisola escura pelos ombros é o meu primo "Lelo" Rocha e ao lado, a mandar parar tudo, com a exuberância que era uma das suas características, a Tia Mariana, proprietária e alma da Pensão Residencial Mariana e viúva do meu tio Serafim Russo, o irmão mais velho de minha Mãe e responsável pela instalação da minha Avó Nazaré e das suas filhas em Montepuez; logo abaixo do braço estendido, a Senhora D. Gracinda Viegas.

Carnavais - I



A "minhota" Lena, certamente longe de imaginar que viria a habitar o coração do Minho!

6.11.11

ALMEIDA



António Carvalho de Almeida (Almeidinha), garboso Aspirante do Quadro Administrativo em Montepuez.
Da esquerda para a direita, as minhas primas Isabel (Belita) Ramalho e Fernanda Teixeira, esta última  futura mulher do personagem central da foto, eu próprio, a minha irmã Lena com uma boneca, os primos Augusto Zé e Teresa Ferreira; atrás do Augusto Zé, alguém cujas feições me são familiares mas cujo nome não me ocorre (tenho a certeza que alguém, em breve, a vai identificar).
Ao casar com a Fernanda, o Almeida tornou-se um pilar da “tribo”, guardião e gestor da sua memória.

3.11.11

Montepuez na Grande Guerra - IV

Paul Emil von Lettow-Vorbeck


Paul Emil von Lettow-Vorbeck (1870-1964) foi um dos mais experientes e destacados Generais alemães.
Nascido no seio de uma família de militares, combateu na China durante a Revolta dos “boxers”, na colónia alemã do sudoeste Africano, a actual Namíbia, e seguidamente, com o posto de Coronel, foi enviado para a colónia da África Oriental alemã, no território da actual Tanzânia, durante o período que nos interessa, e aí comandou as tropas coloniais.
Durante os quatro anos que durou a guerra, com uma força que nunca ultrapassou os 14 mil homens, dos quais 11 mil askari(*) e 3 mil alemães, opôs-se, sempre vitoriosamente, às tropas britânicas, belgas e portuguesas que, no seu conjunto chegaram a ultrapassar os 200 mil soldados.
 Nas suas incursões por colónias britânicas e portuguesas conduziu uma guerra que era uma curiosa misturadetácticas de guerrilha que fazem dele um émulo de Giap e Mao Zedong e práticas cavalheirescas que, como lídimo junker, ainda presava; por exemplo, tinha por hábito oferecer a liberdade aos oficiais inimigos aprisionados contra a promessa de não voltarem a combater.
Conseguiu transmitir aos seus homens, incluindo aos “ferozes” askari, essa mistura de férrea disciplina e de princípios “morais” e os seus subordinados seguiam-lhe o exemplo.
Capitão Francisco Curado
Assim, um dos poucos ofiviais portugueses que ofereceu alguma resistência digna desse nome às tropas alemãs, o Capitão Francisco Curado que as enfrentou heroicamente na batalha da Serra de Mecula, situada na actual Província do Niassa, viu o comandante das forças inimigas, o General Whale (comandante da coluna que ocupou, durante meses, a região de Montepuez), além de prestar honras militares ao Alferes Viriato de Lacerda (**), morto nesse combate, e de lhe oferecer a liberdade em troca do compromisso acima referido que ele recusou, libertá-lo à mesma e oferecer-lhe uma espada como prova de reconhecimento do seu comportamento heróico.
As tropas de von Lettow transportavam consigo os seus meios de subsistência, incluindo uma pequena manada de vacas, tinham instruções para não hostilizar as populações, o saque e a pilhagem fora das operações militares eram punidos com fuzilamento.
Terminada a guerra, Paul Emil von Lettow-Vorbeck regressou à Alemanha onde, apesar da derrota, teve direito a um desfile triunfal.
Por tradição familiar e convicção de classe, von Lettow era um anti-comunista ferrenho e participou na repressão aos Spartakistas comunistas.
No entanto, nunca pactuou com o nazismo ou com Hitler e, enquanto deputado ao Reichtag (1928-1930) participou de várias tentativas (frustradas) de criar uma coligação anti-nazi.


(*)Askari - palavra swahili que significa “soldado” e serviu para designar as tropas nativas que combateram na África Oriental. Corresponde aos cipaios, palavra que, por sua vez, é proveniente do híndi  shipahi.


(**)O Alferes Viriato de Lacerda, promovido ao posto de  Tenente a título póstumo, foi um dos "Cadetes da Rotunda" qe lutou ao lado de Machado dos Santos em 5 de Outubro de 1910.






2.11.11

SAGAL



A SAGAL (Sociedade Agrícola Algodoeira) foi criada em 1933, tendo a sede em Porto Amélia e uma das suas duas fábricas de descaroçamento e prensagem em Montepuez.
A seguir à I Guerra (14-18), viveu-se internacionalmente um período que muitos chamam “euforia algodoeira”. Embora esse clima “altista” da cotação internacional do algodão já estivesse em declínio a partir dos anos 20, só a introdução pelo salazarismo de uma certa “racionalidade” económica na exploração colonial levou a que novas formas de organização do mercado algodoeiro, pelo que foi já num período post-“euforia” que foram constituídas as chamadas “companhias concessionárias” e lhe foram atribuídas funções de monopólios regionais para a comercialização desta matéria prima.
O sistema assentava numa forma de cultura obrigatória na zona atribuída à companhia; a cada cultivador individual era dado, no início da campanha, uma certa quantidade de semente e, após a colheita, eram organizados “mercados” onde o algodão era obrigatoriamente vendido à concessionária a um preço fixado pelas autoridades.
Não admira que, numa economia quase primitiva como era a de Cabo Delgado e num sistema que, na prática, configurava “trabalho forçado”, o algodão tivesse sido, durante muitos anos, a cultura de rendimento e exportação de maior valor.
Só nos primeiros anos da década de 60, com as alterações legislativas provocadas pela consciencialização que o início da luta armada trouxe à política colonial, foram introduzidas tímidas reformas que atenuaram os aspectos mais crus e retrógrados do sistema das concessionárias.
Em Montepuez, embora odiada e temida pelas populações locais que só aceitaram o sistema de cultura obrigatória devido à violência e à repressão, a SAGAL foi, de longe, o mais importante empregador, a primeira (e determinante) unidade industrial e promotora de um certo tipo de modernização.
A sua influência fazia-se sentir em todo o então Distrito de Cabo Delgado e, na zona de Montepuez, tinha unidades agrícolas e industriais em Balama, Namuno, Meloco, Namara e Mesa.