12.3.12

Citação XV


(...) Na parábola dos mapas e no conto "Funes, o Memorioso", Borges ensaiou celebremente um argumento paralelo: a reprodução total é tão inútil como a memória total. O que somos é tão moldado pelo que lembramos como pelo que esquecemos. Pensar é generalizar, e também separar o trivial do indispensável, por vezes deixando que essa separação seja decidida á nossa revelia. A justaposição inspirada que origina uma boa ideia, uma boa frase, ou uma boa piada é tão capaz de surgir de algo que recordamos subitamente como de uma qualquer ligação que se deteriorou sem darmos por isso. O preço a pagar pela fuga gradual do passado - ter de indagar onde meti aquela cena, ou quem é aquele gajo, ou arriscar a contar a mesma piada duas vezes - é pequeno comparado com a fértil vivacidade que isso traz ao presente.
Funes tornara-se tão laborioso na arte da memória que recuperar um dia lhe ocupava um dia inteiro.
A opção sensata e equilibrada é demorar muitos anos a esquecê-lo, um interessante bocadinho de cada vez. 


Rogério Casanova
Pastoral Portuguesa
Revista LER - Fevereiro 2012  Nº 110


Rogério Casanova

11.3.12

Ausência

Parto hoje para a Guiné-Bissau, onde vou acompanhar a Campanha Eleitoral, as Eleições Presidenciais de 18 de Março e o apuramento e publicação dos resultados.
 Bissau - a Marginal.
As eleições que se têm desenrolado naquele País desde 1994, data das primeiras realizadas após a introdução do multipartidarismo, têm proporcionado um contraste algo paradoxal: embora a Guné esteja mergulhada, desde 1999, numa crise profundíssima, marcada pela instabilidade, pela violência e pelo empobrecimento, todos os actos eleitorais - e foram vários - foram pacíficas, ordeiras e transparentes e os seus resultados sistematicamente reconhecidos pela Comunidade Internacional como justos.
Não há nenhuma razão para duvidar que, desta vez, as coisas se passem de forma semelhante.
Até ao dia 21, data do meu regresso, procurarei manter o blog em actividade; contudo, não posso garantir a mesma assiduidade com que o tenho "alimentado".
Mas vou tentar.

Montepuez 2003



Encontrei este video na Internet, com a indicação de 2003 e a legenda "Filme do ex-miltar Lucio A. M. Alves".
Peço desculpa ao autor por o utilizar sem autorização prévia mas julgo que o facto de ser público no YouTube me desculpa do abuso.

10.3.12

Na praia

Obviamente, não estávamos equipados para uma ida à praia.
A Lena, que estaria a fazer?
O Turita antecipa o movimento nudista, proíbido pelo salazarismo - donde se vê que o meu irmão, ainda pequenino, já era um resistente.
Eu, de calções e suspensórios estou com um aspecto mais digno e reservado.
Não sei quem é a outra menina.
A praia deve ser em Porto Amélia.

9.3.12

Afirma a Lena (2)

Já te ia telefonar para te dizer quem era que estava na fotografia, pensei que não te lembravas do nome.
E lembras-te da mulher do Nunes dos Santos? Não te lembras do nome?
Era YVETTE!
Era tão bonita, a Senhora Dona Yvette...

Sim, Lena, dele lembrava-me muito bem e, agora que falas nisso, também me lembro da Srª. D. Yvette.


The Great White Hunter (revisto e corrigido)

 Nunes dos Santos
Quando era muito pequeno, acreditei, durante algum tempo, que a electricidade só funcionava porque havia uns anõezinhos minúsculos que viviam dentro dos fios, dos interruptores e das lâmpadas e que faziam funcionar aquela coisa que, habituado a ter só a luz nocturna dos petromax ou das fogueiras, eu achava vagamente mágica.
Com os computadores passa-se alguma coisa semelhante: acontecem coisas que que por vezes parecem magia de fadas boas e outras maldades de feiticeiras.
Com o post anterior passou-se uma dessas feitiçarias: sem saber porquê, desapareceu o texto que eu planeara para ser ilustrado pela foto (que agora repito).
Vou, por isso, identificar o fotografado: trata-se de um caçador profissional, que vivia em Balama (vizinho do Natupile, portanto) o Nunes dos Santos.
Era um homem muito moreno, de cabelo ondulado e um farto bigode e um grande caçador. Pelo menos, é assim que o recordo.  
Gosto particularmente desta fotografia e do "ar cinematográfico" do Nunes dos Santos, muito Clark Gable  em "Mogambo" ou John Wayne em "Hatari!".
Já agora: "Hatari" significa "perigo", em swahili.

7.3.12

Turita

A fotografia, algo deteriorada, foi captada no court de ténis do Club.
O fotografo, fosse quem fosse, ou não era muito dotado para essa arte ou estava descuidado: deixa que a sua própria sombra interfira, impedindo o olhar de se fixar na angélica face do bambino.
Ao fundo, outro infante, talvez segurando uma raquete, que não é possível identificar.

6.3.12

Assim falou o Turita (2)

Telefonema do meu irmão Turita:

Tu lembras-te quando o Claudino nos salvou dos fuzos, em Porto Amélia? Fomos lá ver a Académica jogar contra a Selecção de Cabo Delgado; acho que a Académica aceitou o jogo por amizade com o António Bagorro.  
Á noite, no Bar, estavam uns fuzileiros, já com os copos e mortinhos por porrada, para dar vazão à agressividade. Meteram-nos na coisa, houve uns empurrões, umas chapadas,...
O certo é que, passado algum tempo, estávamos os dois a beberricar um whiskey, entra um bando de fuzos  com ar de querer  partir aquilo tudo e a perguntar quem foi o gajo que quiz bater num fuzileiro? 
Bem, estava-se mesmo a ver que íamos levar um arraial de porrada. 
O Claudino bem tentou acalmar os gajos, explicar que éramos malta fixe, e coisa e tal...mas as bestas a nada se demoviam; então, em último recurso, o Claudino disse eh pá, se querem andar à porrada, ao menos vão lá p'ra fora, que assim não partem a mobília! 
 Meu Pai entre o Claudino (à dtª) e um militar não identificado
(clicar na imagem para aumentar)
Saímos, fomos para o passeio do meio da avenida principal de Porto Amélia, a Jerónimo Romero e os gajos atrás de nós, a mandar bocas. O Claudino sempre a tentar acalmar a matilha, que eh pá, e tudo malta amiga, pá, os gajos não queriam nada bater num fuzileiro, até gostam maningue dos fuzileiros, pá...
Nós encaminhavamo-nos para a Pensão do Cepêda, que ficava bastante mais abaixo; a certa altura, a coisa estava mesmo feia, começaram a acelerar e nós, à cinema, ficámos costas contra costas, p'ra evitar surpresas e fomos andando, um de nós às arrecuas, o mais depressa possível, com o Claudino oh malta, pá, tenham calma, são meus amigos, por que é que vocês querem arranjar problemas? 
Lá conseguimos chegar ao Cepêda. Que alívio que foi...
Lembras-te? Isto foi quando? 63, 64?

É, deve ter sido isso, Turita. Foi em 63 ou 64 e foi um susto do caraças!

5.3.12

Claudino Bagorro

O irmão mais velho, António Bagorro, apareceu primeiro por terras de Cabo Delgado. Era regente agrícola e um excelente futebolista. Circulavam, entre nós, rapaziada mais nova, histórias que íamos comentando com admiração e respeito, de que chegara a jogar na equipa principal da Académica de Coimbra, então ainda quase completamente amadora e batendo-se com os mais cotados clubes da Primeira Divisão.
Como não podia deixar de ser, era uma das "estrelas" do Atlético, disputado por clubes de Porto Amélia e de Nampula (onde, se não estou em erro, chegou a jogar).
O Claudino, era de outros futebóis e, em campo, talvez fosse, de vez em quando, árbitro substituto, quando era preciso escolhê-lo entre a assistência.
A popularidade do Claudino tornou-se imparável nos anos 60, com a chegada da tropa, quando estva à frente do bar do Teixera & Ramalho, crismado pelo novo patrão com o imaginativo nome de "Paga Já".
Esta fotografia mostra-o junto ao meu Pai, no Natupile, no meio da manada de vacas.
O cão poderia ser a Laika - o que faria dele uma cadela...

4.3.12

Futebol em Montepuez


Uma das minhas fotos favoritas, tirada com a "Clarus" em
1958, em Montepuez. Um contra luz sem filtro, que apesar do
desgaste de 50 anos aos trambolhões, ainda mostra
 a excelência da lente e do sistema de velocidade!
 

Recorro, mais uma vez, às fotografias de Celestino Gonçalves, meu velho amigo.
A legenda da foto é dele, como dele é a descrição da máquina fotográfica que usou:

a "Clarus, uma famosa máquina americana em aço inox, equipada com três lentes, uma delas teleobjectiva ideal para captar imagens a média distância. O bonito e resistente estojo em cabedal rígido, vinha repleto de pertences, tais como filtros, fotómetro, pinceis de limpeza, borracha de ventilação, etc. Era a máquina ideal para me acompanhar nas campanhas do mato que iria ter pela frente, visto que fora concebida para suportar a dureza das reportagens nas frentes de combate durante a segunda guerra mundial."

Não sou, de maneira nenhuma, um expert em fotografia e agradeço a Deus e à tecnologia as máquinas que permitem, com uma simples pressão num botãozinho, fazer fotografias aceitáveis para mostrar à família.
Mas não é difícil reconhecer a qualidade desta, sobretudo tendo em consideração a data (1958).
Não reconheço o acrobático (e elegante) guarda-redes e não lobrigo o equipamento do Atlético. 
Depreendo, no entanto, que o Atlético seria uma das equipas a jogar nesta partida.
Dentre os guarda-redes do glorioso Atlético, vem-me imediatamente à memória o António Granjeia, que me lembro bem de ver jogar muitas vezes. O seu irmão Henrique, exímio e rápido avançado, veloz e com grande poder de finta (entre outros talentos), também ocupou a baliza, certamente por algum irritante impedimento do titular.
Eram assim, os craques do Atlético: polivalentes, jogando em qualquer lugar, desde que pudessem dar uns pontapés na bola!
G'anda Atlético, a melhor equipa de Montepuez e arredores (mesmo incluindo o Arsenal de Balama) !  





3.3.12

O campo de futebol



Publiquei esta fotografia, tirada durante a viagem a Montepuez que provocou a criação e manutenção do blog  a ilustrar este post.
Na foto abaixo, pode ver-se o mesmo campo  durante uma partida de futebol em que uma das equipas era, certamente, o Clube Atlético de Montepuez.
O Clube era o centro social por excelência, como quase sempre acontece em terras pequenas.
Nele se organizavam as festas, se praticavam jogos (cartas, bilhar, "quinos", etc.), no seu bar se cavaqueava (salvo seja...) animadamente.
A criançada também se divertia e, a certa altura, não sei bem porquê, a Escola Primária  chegou a funcionar nas instalações do Clube.
Quando os tempos não iam de feição, acontecia ser algo difícil reunir nomes suficientes e vontades bastantes para compor Direcções.
Nem sempre, embora mandassem as praxes que ninguém fizesse campanha eleitoral ou, sequer, anunciasse interesse em exercer qualquer cargo.
O direito de usufruir das instalações e amenidades do Clube estavam reservados aos brancos.
Na minha primeira infância, esse facto era, para mim, um dado adquirido, uma situação natural que não merecia contestação ou espanto.
Só mais tarde, quando espírito crítico e sensibilidade trazidos pela adolescência começaram a despertar-me para a feia realidade da sociedade colonial, é que me senti agredido por essas situações.
A discriminação praticada no Clube merecia uma excepção: a partir de certa altura, alguns negros, desde que fossem "bons de bola", podiam ser incluídos na equipa de futebol.
Mas nunca, nunca, serem, por exemplo, capitães da equipa! 
Imaginem, que tolice!...

2.3.12

A "asiática"

As gerações mais novas não fazem ideia do que foi a grande epidemia da "gripe asiática" nem do pânico universal que ela despoletou.
As viagens aéreas tinham começado a ser acessíveis a grandes massas de pessoas, as comunicações por Rádio e TSF acompanhavam o tremendo progresso tecnológico do pós-guerra e, assim, a onda de alarmismo, que precedia a da gripe propriamente dita, disseminou-se a uma velocidade então inédita.  
A gripe foi, na primeira fase, detectada na China,em 1957, assim como aí foi isolado o vírus responsável.
Calcula-se que tenha havido cerca de 2 milhões de mortos e, segundo a OMS, 80% da população podem ter sido atingidos (como aconteceu comigo) o que, proporcionalmente, equivaleria hoje a 6 milhões, tendo em conta o acréscimo da população mundial.
Mesmo assim, a dimensão desse surto não é comparável à da "gripe espanhola" que grassou durante a Guerra de 14/18 e que fez 20 milhões de mortos!
É certo que as gigantescas hecatombes que têm sido profetizadas a propósito de pandemias como a das "vacas loucas", da "gripe das aves" ou da "gripe suína" não têm passado de foguetes de pólvora molhada.
Estão, de resto, por deslindar a origem, responsáveis e objectivos de tais "campanhas" que, além de poderem  fazer o papel de Pedro em relação ao Lobo, criam terreno propício a teorias da conspiração, tanto mais atractivas quanto, de facto, deixam perplexas larguíssimas camadas da população.
Mas a "asiática", como era familiarmente tratada a epidemia, foi real e grassou por vários anos, deixando um longo estendal de mortes.
Chegou à Europa vinda da América Latina mas, por infeliz coincidência, julga-se que o primeiro portador a infectar alguém em Portugal, tenha sido um passageiro do paquete Moçambique.

1.3.12

Padre Soares

O Padre Soares foi Director do Colégio Vasco da Gama, em Nampula, que frequentei em 1958/59, juntamente como o meu irmão Turita e os meus primos Beto, Lelo e Augusto José.
Deste Colégio falarei num futuro post da série "Errâncias".
 "Ao amigo Turita of. Entre rosas da minha aldeia com música de
sinos  horizontes de sonho e saudades de África.  Pe.   Soares "

A foto, como se vê pela dedicatória no verso, foi enviada ou entregue ao meu irmão.



Do Pe. Soares perdura (entre outras, claro) uma recordação muito vívida: em 1958, estando no Colégio, fui vítima da "gripe asiática".
Os meu Pais estavam em Montepuez, a quase 500 km de distância.
Já convalescente, lembro-me de o Pe. Soares entrar na enfermaria, com um largo sorriso que sempre o acompanhava. Parou ao lado da minha cama e disse, com a voz estentórea que era outra das suas características: "Recebi um telegrama da tua Mãe a dizer que não podes apanhar a gripe porque é muito perigoso para ti; eu disse-lhe que não havia problema porque havia uma maneira de não apanhares a gripe - cortar-te a cabeça!".
Não foi necessário.
Ao contrário do que se esperaria de um Director de um Colégio religioso, que eu pensava ser uma espécie de "super prefeito", disciplinador e irascível, o Pe. Soares era uma criatura simpática, um vulto protector e bem disposto.
Mas isso não o impedia de, por vezes, usar a sua considerável manápula como instrumento pedagógico.
Nessa época, os castigos físicos de crianças eram permitidos (quando não incentivados) e não ocorria a nenhum de nós que eles constituíssem algo de criminoso.